Um relatório recente do The Guardian reacendeu o debate sobre a possibilidade de uma bolha especulativa em torno da inteligência artificial. Já em outubro passado, quando a Nvidia atingiu uma capitalização de mercado de 5 mil bilhões de dólares — patamar inédito para uma empresa listada — surgiram as primeiras apreensões: a corrida pela IA nos conduzirá a uma era de abundância produtiva ou terminará em um colapso financeiro semelhante ao de 2008?
Para compreender essa tensão entre entusiasmo e cautela, conversei com o prof. Vittorio Emanuele Falsitta, jurista e filósofo, autor do livro “Il crepuscolo dell’umano” (Cantagalli, 2025). As suas observações oferecem uma leitura menos maniqueísta e mais ancorada na dinâmica entre técnica e capital.
Quando se fala em risco de bolha, até vozes relevantes do setor — incluindo o CEO da Alphabet, Sundar Pichai — pedem prudência. O professor Falsitta, contudo, apresenta pelo menos três considerações gerais que, segundo ele, minimizam a plausibilidade de uma bolha sistémica:
- Integração sistêmica: a tecnologia de IA já se tornou um componente estrutural de cadeias produtivas, infraestrutura de serviços e plataformas de dados. Esse entrelaçamento com o tecido econômico reduz a probabilidade de um descolamento absoluto entre valor financeiro e utilidade real.
- Racionalização do capital: as ferramentas algorítmicas e os modelos de previsão tornam o capital mais apto a calcular e a governar riscos, refinando decisões de alocação. Essa “afinidade técnica” entre finança e engenharia dificulta exceções massivas sem fundamento tecnológico.
- Medida de produtividade: o valor das inovações em IA tende a se manifestar em ganhos mensuráveis de produtividade e eficiência operacional, criando fundamentos reais para investimentos que, embora agressivos, não seriam puramente especulativos.
Falsitta lembra, no entanto, que a caixa de ferramentas clássica do economista não é suficiente para esgotar o fenômeno. A ideia de bolha surge quando a relação entre objetos — aqui, entre tecnologia e investimento financeiro — perde coerência. Para avaliar essa coerência é preciso atravessar camadas: técnicas, econômicas e ideológicas. A relação que hoje liga técnica e capitalismo é alimentada por uma combinação de eficiência e propósito acumulador; por isso, não é trivial concluir que essa mesma relação vá degenerar automaticamente em uma bolha irracional.
Do ponto de vista do pensamento, diz o professor, a técnica tem tornado o capitalismo mais calculável: mais especulativo talvez, mas também mais capaz de mensurar e gerir o risco. Em linguagem de infraestrutura, a IA funciona como uma camada adicional no “sistema nervoso das cidades e das empresas”: quando bem integrada, ajuda a equilibrar fluxo de capital e fluxo de dados, evitando curtos-circuitos financeiros.
Isso não significa que não existam vulnerabilidades. Concentração de mercado, avaliações excessivas em empresas isoladas, lacunas regulatórias e riscos de fraude continuam sendo pontos de atenção que podem provocar correções severas em segmentos específicos. Assim, embora menos provável uma bolha sistêmica, é real a possibilidade de bolhas setoriais ou de rupturas locais, especialmente onde a governança e o tecido institucional são frágeis.
Em síntese: a inteligência artificial tem mais propriedades de uma revolução estrutural do que de uma bolha puramente especulativa, mas essa revolução exige marcos regulatórios, governança de dados e escrutínio público para não transformar potencial econômico em risco sistêmico. Como observador dos alicerces digitais da Europa, vejo a questão como uma obra de engenharia institucional: é preciso projetar a infraestrutura normativa e técnica para que os benefícios se distribuam e os conflitos sejam geridos antes que causem danos.
Riccardo Neri — Espresso Italia






















