Por Riccardo Neri — A busca secular pela imortalidade encontrou um novo alicerce nas camadas digitais da nossa sociedade. Segundo o estudo da Eurispes “Il mercato dell’immortalità. Nuova società, nuove sensibilità”, surge uma indústria já estruturada que transforma e-mails, mensagens, imagens e áudios em réplicas interativas de pessoas falecidas: a Digital Afterlife Industry.
Em termos práticos, a chamada imortalidade digital é uma forma simbólica de continuidade: modelos de linguagem e sistemas de dados são treinados com os vestígios digitais de uma vida para gerar chatbots e gêmeos digitais capazes de manter interlocução bidirecional com os vivos. Esses artefatos não restauram um corpo — atuam como camadas de memória e comportamento codificadas, uma espécie de “arquivo vivo” que replica traços reconhecíveis do falecido.
O estudo mapeia ainda outras frentes da busca pela longevidade: técnicas de life extension, terapias genéticas anti-aging, regeneração celular com células-tronco, e a criopreservação como tentativa de postergar um fim biológico na expectativa de futuras reanimações tecnológicas. No horizonte teórico, o transumanismo e a hipótese do mind uploading — o backup de pensamentos e o eventual “transferência da mente” para substratos computacionais — figuram como projetos ambiciosos, ainda em grande parte especulativos.
Uma parte significativa do trabalho da Eurispes foca nas atitudes de jovens italianos, especialmente Millennials e membros da Geração Z. Os resultados delineiam uma tensão: por um lado, existe curiosidade tecnológica e interesse; por outro, há forte resistência ética e desconforto emocional. Muitos jovens manifestam preocupação com o apagamento dos limites entre vida e morte e temem que réplicas digitais compliquem o processo de luto, gerando dependência emocional ou dificuldades para elaborar a perda.
Outro ponto sensível é o consenso. A indústria do pós-vida digital usa como matéria-prima dados gerados em vida; isso levanta questões sobre titularidade, autorização e limites temporais de uso desses dados. Em termos de governança, trata-se de um problema de arquitetura de dados: quem decide que fragmentos do “sistema nervoso” pessoal podem ser preservados e reativados?
Do ponto de vista da infraestrutura, a emergência da imortalidade digital revela como algoritmos e plataformas se tornaram alicerces invisíveis que sustentam experiências sociais fundamentais — inclusive a memória coletiva e individual. Não é uma promessa puramente técnica, mas uma reconfiguração das relações entre identidade, tecnologia e regulação.
Como analista, vejo duas demandas claras: regras de consentimento mais rígidas e padrões mínimos de transparência sobre os modelos usados para criar réplicas. Sem esses guardrails, o risco é que a tecnologia amplie fraturas emocionais e jurídicas, preservando traços humanos de modo não solicitado. A inovação precisa caminhar acompanhada de processos de governança que protejam a dignidade dos indivíduos e a saúde mental das comunidades.
Em resumo, a Digital Afterlife Industry está crescendo: cria possibilidades inéditas, mas impõe desafios práticos e éticos que a sociedade europeia — e a italiana em particular — terá de regulamentar. O fenômeno nos lembra que a infraestrutura digital não é neutra: ela reescreve como lembramos e como nos relacionamos com a própria finitude.






















