Homo erectus pode ter chegado ao leste asiático muito antes do que a comunidade científica supunha. Um estudo publicado em Science Advances descreve novas evidências originadas na região de Yunxian, na China, que apontam para uma presença humana primitiva datada de cerca de 1,7 milhões de anos — aproximadamente 600 mil anos antes das estimativas anteriores, que situavam os fósseis mais antigos nessa área em torno de 1,1 milhão de anos.
A pesquisa, coordenada por Christopher J. Bae (Department of Anthropology, University of Hawaii at Manoa) em colaboração com o professor Hua Tu (Institute of Marine Sciences da Shantou University e College of Geographical Sciences da Nanjing Normal University), reavalia a cronologia da dispersão dos primeiros hominídeos para a Ásia Oriental. Os autores combinam novas descobertas de restos fósseis com técnicas de datação física para construir uma linha temporal mais robusta da ocupação humana naquela bacia sedimentar.
Do ponto de vista metodológico, o estudo usa a datação por enterro baseada nos isótopos cosmogênicos de Al-26 (Alumínio-26) e Be-10 (Berílio-10) presentes nos sedimentos que envolviam os fósseis. Em termos simples — e com a linguagem de quem analisa infraestruturas — esses isótopos funcionam como sensores no sistema nervoso da Terra: enquanto os grãos de quartzo ficam expostos à superfície, os raios cósmicos geram Al-26 e Be-10; quando esses grãos são enterrados, a produção para e começa o processo de decaimento radioativo. Comparando as proporções remanescentes entre os dois isótopos, os pesquisadores calculam há quanto tempo aquele estrato ficou isolado do fluxo cosmogênico, estimando assim a idade do enterro.
O professor Hua Tu detalha que a interrupção na produção isotópica após o soterramento, combinada com taxas de decaimento conhecidas, permite uma cronologia quantitativa e replicável: é uma camada de inteligência aplicada aos sedimentos — um marcador temporal que, como um relógio de referência num nó de rede, registra o momento em que o sedimento saiu do circuito de produção isotópica.
As implicações são significativas. Se a presença de Homo erectus em Yunxian realmente remonta a 1,7 milhões de anos, isso empurra para trás a janela em que os primeiros hominídeos saíram da África rumo à Eurásia. Esse alargamento temporal questiona modelos consolidados sobre rotas e cronologias de dispersão e abre espaço para considerar que outras espécies de hominídeos poderiam ter precedido ou acompanhado o Homo erectus nas primeiras migrações para o continente asiático.
Christopher Bae observa que a combinação de fósseis e datação por enterro formou uma base robusta para reconstruir a chegada desses hominídeos ao leste asiático, apontando que esses resultados “forçam a revisão de hipóteses consolidadas” sobre movimentações pré-históricas. Em termos de arquitetura do conhecimento, trata-se de atualizar os alicerces digitais e cronológicos que sustentam a narrativa da nossa dispersão: uma recalibração que afeta modelos em paleoantropologia e arqueologia paleolítica.
Conclui-se que a nova cronologia de Yunxian representa um avanço crucial para entender as camadas iniciais da presença humana na Ásia. A descoberta ilustra como técnicas de datação físicas aplicadas a sedimentos — o equivalente geológico de diagnósticos em tempo real numa rede urbana — são capazes de redefinir o mapa das migrações humanas e de remodelar as hipóteses sobre quem, quando e como compôs o primeiro tecido populacional do continente.

















