Por Riccardo Neri — Um novo relatório das Nações Unidas desenha um panorama técnico e implacável: entramos na era da bancarrota hídrica global. Com base em grandes conjuntos de dados globais e em evidência científica recente, o documento aponta perdas persistentes e muitas vezes irreversíveis nos recursos hídricos que sustentam cidades, agricultura e ecossistemas.
O trabalho, intitulado “Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”, adverte que termos usuais como “estresse hídrico” ou “crise hídrica” subestimam a realidade em muitas regiões: trata-se de uma condição pós-crise, caracterizada pela erosão do capital natural hídrico e pela incapacidade de voltar aos níveis históricos de referência. Segundo o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto para a Água, o Ambiente e a Saúde (UNU-INWEH): muitas bacias e sistemas hídricos críticos já estão operando acima das suas capacidades e muitos estão tecnicamente em bancarrota.
Os números no relatório são claros e frios — como um diagnóstico estrutural sobre os alicerces naturais da sociedade:
- 50% dos grandes lagos do mundo perderam água desde o início dos anos 1990 (e 25% da população mundial depende diretamente desses lagos);
- 50% da água usada em residências globalmente hoje provém de lençóis freáticos;
- mais de 40% da água para irrigação é extraída de lençóis freáticos que estão sendo drenados de forma contínua;
- 70% das principais lençóis freáticos mostram um declínio de longo prazo;
- 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais desapareceram nas últimas cinco décadas — área quase equivalente à União Europeia;
- mais de 30% da massa global de geleiras perdida desde 1970;
- 100 milhões de hectares de terras cultiváveis degradadas apenas por salinização.
Expressando o fenômeno em termos financeiros, o relatório compara o uso excessivo de água renovável anual — proveniente de rios, neve e infiltração — ao consumo do rendimento corrente; ao mesmo tempo, foram consumidos os “poupanças” de longo prazo armazenadas em lençóis freáticos, geleiras e zonas úmidas. O resultado técnico inclui problemas tangíveis: compactação de aquíferos, subsidência de terrenos em deltas e áreas costeiras urbanas, desaparecimento de lagos e perdas irreversíveis de biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
Do ponto de vista de infraestrutura, essa erosão do capital natural funciona como uma falha na base do sistema nervoso das cidades: menos água subterrânea está disponível para abastecimento urbano; menos zonas húmidas atuam como amortecedores de cheias; menos geleiras alimentam rios sazonais. O fluxo de dados e a monitorização ajudam a mapear o problema — mas a solução exige políticas e investimento para reconstruir e preservar o capital natural.
O relatório também formaliza a definição de bancarrota hídrica em dois critérios: 1) extração persistente e excessiva das águas superficiais e subterrâneas em comparação com os afluentes renováveis e níveis seguros de esgotamento; e 2) a perda irreversível ou economicamente proibitiva do capital natural hídrico. Essa definição, revisada por pares para publicação na revista Water Resources Management, converte indicadores hidrológicos em métricas de sustentabilidade de longo prazo — essencial para decisões de gestão pública e urbana.
Para além do diagnóstico, o documento pede que líderes mundiais promovam um adaptação baseada na ciência, alinhada a estratégias integradas que considerem serviços ecossistêmicos, infraestrutura física e camadas de inteligência para gestão de recursos. Em linguagem de engenheiro de redes: é preciso restaurar os alicerces naturais enquanto se reforçam as malhas urbanas e os sistemas de governança que controlam o fluxo de água.
Como analista de inovação aplicada, vejo neste relatório não apenas um aviso ambiental, mas uma chamada para reavaliar como as cidades e as políticas tratam a água — não como um insumo inesgotável, mas como infraestrutura crítica cujo esgotamento compromete a resiliência de sociedades inteiras. Políticas públicas, monitoramento em tempo real e investimentos em restauração ecológica e eficiência hídrica precisam compor uma arquitetura integrada para evitar que a atual condição evolua de bancarrota para colapso sistêmico.
Em termos práticos, isso significa priorizar medidas científicas e baseadas em dados: gestão sustentável de lençóis freáticos, recuperação de zonas úmidas, controle da salinização e redução do consumo agrícola intensivo. Essas ações deverão ser vistas como manutenção dos alicerces naturais que mantêm o funcionamento das cidades e do campo — o verdadeiro sistema nervoso que sustenta a Europa e a Itália.






















