Por Riccardo Neri — A hipótese de que o segredo para autenticar uma obra de Leonardo não esteja apenas no traço ou nos pigmentos, mas no próprio DNA do autor, deixou de ser mera especulação e avança como uma metodologia científica concreta. O Leonardo da Vinci DNA Project (LDVP) anunciou a identificação de traços genéticos atribuíveis à linhagem dos da Vinci em um desenho renascentista e em documentos familiares antigos, sinalizando um novo capítulo na chamada arteômica.
Os pesquisadores, reunidos em uma equipe internacional, publicaram os resultados preliminares em bioRxiv, com ampla cobertura pela Science Magazine. Utilizando técnicas de amostragem não invasivas, os cientistas analisaram material biológico recolhido do desenho conhecido como Sacro Bambino (uma sanguínea controversa) e de cartas do século XV assinadas por um parente masculino de Leonardo. Os vestígios recuperados apontam para o aplogrupo E1b1b, um ramo genético historicamente presente na Toscana. Trata-se de uma espécie de “assinatura biológica”, ainda que não represente uma prova inequívoca por si só.
Como explica David Caramelli, antropólogo da Universidade de Florença, identificar uma identidade única após cinco séculos é uma tarefa hercúlea: Leonardo não deixou descendentes diretos e seus restos, originalmente sepultados em Amboise, foram dispersos durante tumultos do século XIX. Para contornar a ausência de um padrão de referência direto, a equipe está sequenciando o DNA de descendentes paternos vivos e analisando restos recuperados de túmulos familiares na Toscana. O objetivo é localizar células epiteliais do mestre misturadas aos pigmentos, já que é documentado que Leonardo costumava esfumar cores com os dedos.
A abordagem, conforme resume Jesse Ausubel, cientista da Rockefeller University, transforma aquilo que antigamente se via como simples “contaminação” em evidência valiosa. Em termos de preservação do patrimônio, esse procedimento inaugura uma camada adicional do sistema de autenticação: o sequenciamento genético é tratado como uma infraestrutura de verificação, uma espécie de fio condutor invisível que pode ligar uma obra ao seu criador quando outros alicerces — estilo, pátina, proveniência — não bastam.
Do ponto de vista técnico, o projeto exemplifica como o fluxo de dados e as camadas de inteligência aplicadas aos bens culturais estão redesenhando a conservação museal. Não se pretende substituir o juízo dos historiadores da arte; ao contrário, a análise do DNA funciona como uma ferramenta complementar que agrega objetividade ao processo de atribuição. Em uma arquitetura de decisão robusta, o perfil genético seria mais uma camada — assim como sensores em uma rede urbana — que reduz incertezas e melhora a eficiência na proteção do acervo.
Resta, portanto, cautela: ainda que promissor, o resultado atual é um ponto de partida. A confirmação definitiva dependerá da convergência entre sequências genéticas dos descendentes paternos, restos familiares e a identificação inequívoca de células humanas incorporadas aos pigmentos. Se comprovado, o DNA de Leonardo não será apenas uma curiosidade científica, mas uma peça-chave para preservar a herança de um dos mais importantes nomes da cultura europeia, reduzindo as sombras que cercam a atribuição de obras centenárias.






















