Por Riccardo Neri — Uma investigação longitudinal da Universidade Aalto, publicada no Journal of Medical Internet Research, revela que atividades digitais comumente percebidas como formas de alívio — como compras online, uso de redes sociais e gaming — estão associadas a níveis mais elevados de estresse em comparação com práticas online mais informacionais ou utilitárias, como ler notícias, checar e-mails ou consumir conteúdos adultos.
O estudo monitorou, ao longo de sete meses, o comportamento digital de quase 1.500 adultos, combinando dados objetivamente rastreados — aproximadamente 47 milhões de visitas a sites e 14 milhões de aberturas de apps — com questionários repetidos sobre o estresse percebido. Essa combinação de dados comportamentais reais e autorrelatos oferece um dos quadros mais detalhados até agora sobre o impacto das rotinas digitais no bem-estar.
Segundo Mohammed Belal, pesquisador de doutorado e autor principal, embora plataformas de socialização e de comércio costumem funcionar como estratégias de coping, o aumento do tempo dedicado a essas atividades mostrou-se consistentemente associado a um acréscimo no distress entre diferentes grupos de usuários e em variados dispositivos. Esse padrão reacende o clássico dilema sobre causalidade: será que as pessoas estressadas buscam mais esses serviços ou esses serviços alimentam o estresse?
Os resultados também indicam que o uso de plataformas de streaming e de games está correlacionado com níveis superiores de estresse. Notavelmente, entre indivíduos já muito pressionados, o tempo em redes sociais tem probabilidade duas vezes maior de estar ligado ao aumento de estresse do que o tempo dedicado ao gaming. Em contrapartida, o estudo encontrou que, em vários subgrupos, maior uso de e-mail, sites de informação e conteúdos adultos foi associado a menores níveis de estresse — ressalva importante: a análise considerou apenas o tempo de exposição, não a natureza dos conteúdos consumidos.
Dados demográficos complementam o quadro: mulheres relataram níveis de estresse superiores aos homens; idades mais avançadas e rendas mais elevadas mostraram associação com menor percepção de estresse. A coautora Juhi Kulshrestha destaca o valor do uso de dados comportamentais reais coletados por software de monitoramento em vez de depender somente de autorrelatos, mas aconselha prudência ao inferir relações causais e pede estudos adicionais para esclarecer a bidirecionalidade entre comportamentos digitais e estresse.
Do ponto de vista de infraestrutura digital e políticas públicas, compreender essas dinâmicas é crucial. Assim como a gestão da energia exige medições finas e arquitetura confiável, o planejamento de intervenções para o bem-estar digital precisa se basear em sinais reais do fluxo de uso: só com esse diagnóstico é possível desenhar ferramentas, alertas e serviços que ajudem usuários a regular conscientemente sua navegação e manter um equilíbrio saudável entre vida online e offline.
Em termos práticos, a pesquisa reforça que o sistema nervoso das cidades digitais — as camadas de dados que sustentam nossas rotinas cotidianas — deve ser monitorado não por curiosidade tecnológica, mas para orientar intervenções que preservem a resiliência social. Desenvolvedores, reguladores e profissionais de saúde digital podem usar insights como estes para ajustar interfaces, políticas de notificação e recomendações personalizadas, transformando o algoritmo em infraestrutura que protege o bem-estar, não apenas maximiza engajamento.






















