Recentemente presente no evento do UNODC (Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime) para discutir estratégias contra a criminalidade organizada transnacional, o professor Vincenzo Musacchio detalha como as táticas de investigação evoluíram frente às novas cibermafias. Abaixo, uma síntese analítica das principais linhas de ação e dos desafios técnicos e institucionais levantados por ele.
Do “Follow the Money” ao “Follow the Flow”
Segundo Musacchio, a máxima clássica de Giulio Falcone — “Follow the Money” — não perdeu valor, mas sofreu uma mutação operacional. Hoje as investigações giram em torno do Follow the Flow: além de rastrear recursos financeiros, autoridades monitoram fluxos de dados, comunicações e transações digitais em tempo real. Essa mudança transforma a investigação em um exercício de observação do sistema nervoso digital das organizações criminosas, identificando servidores, nós de comunicação, domínios e serviços em nuvem usados para comando e controle.
O cruzamento de metadados — horários de acesso, correlação de sessões e assinaturas de tráfego — permite revelar esquemas de coordenação e interromper operações antes que ataques de larga escala sejam executados. Em termos de infraestrutura, é como detectar uma sobrecarga em um subestação antes que o blackout se propague.
Criptomoedas: vantagens tecnológicas e riscos para a investigação
As criptomoedas oferecem ferramentas legítimas de inovação, mas introduzem mecanismos de anonimização que complicam a atuação policial. Para mitigar esse obstáculo, equipes combinam técnicas de blockchain analytics, clustering de endereços e cooperação com exchanges reguladas para reconstruir cadeias de transferência e localizar pontos de conversão para moedas fiduciárias.
Mixers e serviços de mistura aumentam a complexidade, mas não tornam o rastreamento impossível. Investigações recentes, fora do escopo desta entrevista, demonstraram que a análise de movimentos entre múltiplas corretoras e o cruzamento com dados de provedores conseguem desanonimizar wallets associadas a ataques de ransomware — um exemplo prático de como camadas analíticas recuperam visibilidade em um ambiente que tenta operar por detrás de uma máscara criptográfica.
Inteligência artificial: ferramenta e vetor de risco
A inteligência artificial tem dupla face: serve tanto para antecipar padrões de ataque quanto para potencializar técnicas criminosas. As forças de investigação usam algoritmos de machine learning supervisonado e não supervisonado para identificar anomalias, agrupar atividades suspeitas e profilizar atores ao longo do tempo. Ferramentas que processam volumes massivos — fóruns do dark web, marketplaces ilícitos, logs de rede e telemetria — ajudam a mapear redes criminosas.
No entanto, Musacchio adverte para a necessidade de garantias: modelos mal calibrados produzem falsos positivos e podem intensificar vieses. Transparência, auditoria de algoritmos e salvaguardas de privacidade são requisitos imprescindíveis para que a IA seja aceite como instrumento legítimo de investigação.
Integração institucional e cooperação internacional
O combate eficaz exige coordenação transfronteiriça, acordos jurídicos e parcerias público-privadas. Troca de inteligência, padrões técnicos partilhados para evidência digital e iniciativas de capacity building são alicerces para uma resposta coerente. Sem esses elementos, mecanismos locais se fragmentam e a criminalidade explora lacunas normativas e jurisdicionais.
Conclusão: infraestrutura, dados e governança
Na avaliação de Musacchio, a luta contra as cibermafias é tanto tecnológica quanto institucional. Requer ferramentas analíticas robustas, acordos de cooperação internacional e uma arquitetura de governança que preserve direitos enquanto assegura eficácia. Em linguagem de infraestrutura: é preciso fortalecer os alicerces digitais, mapear o fluxo de energia informacional e construir camadas de inteligência que funcionem com transparência e responsabilidade.






















