Las Vegas manteve a tradição do CES como vitrine onde os grandes anúncios de chip e inteligência artificial convivem com invenções que testam os limites do útil. Fora do palco dos lançamentos corporativos, o salão exibiu protótipos e conceitos que dizem muito sobre a direção da tecnologia: presenças domésticas que buscam relação, displays que mudam forma e máquinas que redesenham a mobilidade dentro de casa.
No centro dessas excentricidades está a categoria dos robot-companion. Não são simples eletrodomésticos nem brinquedos; funcionam como agentes pessoais de presença, pensados para conviver com pessoas em lares e escritórios. A cobertura de veículos como Engadget destacou uma onda de pequenos “cyber pet” vocais que priorizam a interação afetiva — casos como o OlloBot — e a proposta da TCL, com seu conceito Robot Companion (Ai Me), enquadra-se na narrativa do smart living orientado por AI.
Essa camada emocional da máquina levanta questões sociais reais: há potencial para amenizar a solidão, mas também uma mudança no tecido das relações humanas mediadas por algoritmos. Do ponto de vista da infraestrutura, é como adicionar um novo nó ao sistema nervoso das casas — um componente que processa dados afetivos e executa rotinas de convivência.
Outro segmento que chamou atenção foi a geração de aspiradores que desafia um limite prático histórico: as escadas. A Roborock apresentou o Saros Rover, um robô com arquitetura wheel-leg (roda + articulações) capaz de subir e limpar degraus. Dreame mostrou um conceito com “patas” ou suportes para vencer rampas inteiras. São soluções que ampliam as possibilidades de autonomia doméstica, mas também alteram a percepção do que pode se mover livremente pelo espaço privado — uma tensão interessante entre eficiência e estranhamento.
Na interseção entre “genial” e “estranhamente íntimo” surgem objetos que tratam a AI como parceiro pessoal. A Quartz citou um dispositivo descrito como um “soulmate” de mesa: um pequeno display OLED prometendo empatia e diálogo, mais próximo de uma companhia digital do que de um assistente de voz tradicional. Vertentes de produto exibidas no evento exploraram displays curvos e interações com traços emotivos, reiterando que a camada de interface também é campo de experimentação emocional.
Para o efeito “uau”, houve um desfile de displays em escala exagerada. A Samsung mostrou seu Micro RGB de 130 polegadas, tratado quase como peça de arquitetura: moldura Timeless Frame, áudio integrado na estrutura e otimizações por AI para cor e contraste. É uma indicação clara de que telas estão sendo reposicionadas como instalações — parte do mobiliário, parte da experiência imersiva — e não apenas como aparelhos eletrônicos.
O tema da mutabilidade de forma também se destacou. A Lenovo apresentou conceitos rollable para uso profissional e gamer — o ThinkPad Rollable X e o Legion Pro Rollable — projetados para transformar um portátil convencional em um ultrawide sem necessidade de monitores externos. No mesmo ecossistema conceitual, a empresa falou sobre agentes pessoais (Qira) e wearables “agentic-native”, indícios de uma arquitetura onde dispositivos orquestram ações entre múltiplas telas e serviços.
O CES 2026, portanto, foi mais do que a soma de anúncios: foi um mapa de experimentos. Entre a utilidade imediata e o provocation design, essas inovações mostram como as camadas de inteligência estão sendo entrelaçadas aos alicerces digitais de lares e cidades. Para quem vive na Europa, esses movimentos antecipam transformações nas rotinas domésticas, na configuração do espaço residencial e na forma como o fluxo de dados molda companhia e conforto.






















