Um consórcio liderado por pesquisadores do INAF, INFN e ASI anunciou a detecção de traços de um campo magnético primordial nos vazios intergalácticos — regiões tão extensas e rarificadas que, à primeira vista, parecem destituídas de qualquer propriedade física. O estudo, publicado em Physical Review D, estabelece o limite inferior mais rigoroso até hoje para a intensidade desse campo: 25 miliardésimos de miliardésimos de Gauss (≈ 2,5×10-17 G).
Embora essa intensidade seja quase infinitesimal — o campo magnético terrestre é aproximadamente 20 milhões de bilhões de vezes mais forte — o resultado é suficiente para demonstrar que os vazios cósmicos não são verdadeiramente vazios. Eles carregam uma energia magnética que remonta às fases iniciais do Universo, um vestígio dos processos que operaram logo após o Big Bang.
A chave dessa medição foi um evento extraordinário: o lampejo de raios gama GRB 221009A, a explosão mais luminosa já catalogada. Esse “farol” cósmico iluminou distâncias enormes, oferecendo ao telescópio espacial Fermi da NASA dados de altíssima energia que permitiram estudar como os fótons atravessam o meio intergaláctico. Quando fótons de energia muito alta interagem com o fundo de luz extragaláctica, formam-se pares de elétron e pósitron que, ao se propagar, geram uma cascata de radiação secundária. Na presença de um campo magnético, essas partículas sofrem deflexões que deixam uma assinatura na distribuição e no atraso temporal da radiação gama observada.
O que torna este resultado robusto é a combinação entre a extraordinária intensidade e a curta duração do GRB 221009A: a clareza do sinal permitiu aos pesquisadores isolar o efeito do magnetismo cosmológico como a variável dominante na formação da cascata, descartando outras fontes de dispersão ou interação. Em termos práticos, os cientistas comprovaram que uma pequena deflexão imposto por um campo magnético residual nos vazios produz uma impressão detectável no sinal observado por Fermi.
Paolo Da Vela, pesquisador do INAF e um dos coordenadores do trabalho, destaca que as simulações indicam a possibilidade de refinar ainda mais a medição com o monitoramento continuado dessa região do céu nos próximos anos. Ele aponta que a observação de novos eventos transientes de muito alta energia, na faixa de TeV, será crítica. Em particular, o futuro Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO) deverá aumentar o número de GRBs detectados em altas energias e, assim, aperfeiçoar os limites sobre os campos magnéticos intergalácticos.
Do ponto de vista conceitual, esse resultado funciona como um raio-X aplicado à infraestrutura do Universo: é como identificar um cabo elétrico quase invisível que alimenta a malha das estruturas cósmicas. Esses campos primordiais são parte dos alicerces que influenciaram a formação de galáxias e filamentos, agindo como camadas conjuntas do que podemos chamar de “sistema nervoso” do cosmos.
Em termos metodológicos, o uso de explosões transientes extremamente brilhantes como sondas é um exemplo elegante de como sinais raros e breves podem fornecer informações sobre propriedades em escala cosmológica. O estudo demonstra também a crescente capacidade de transformar dados de alta energia em medições de campos sutis, um avanço que combina modelagem teórica, simulação numérica e instrumentação espacial de ponta.
Para a comunidade europeia de astrofísica e para a arquitetura de observatórios que se avizinha, o trabalho representa uma prova de conceito: com catálogos ampliados de eventos TeV e sensores mais sensíveis, será possível mapear com maior precisão o tecido magnético que atravessa o Universo e entender melhor como essas forças invisíveis atuaram como infraestrutura física durante a evolução cósmica.






















