Por Aurora Bellini — Nas encostas que olham o mar, Ventotene voltou a iluminar um projeto político e simbólico: a construção de uma Europa mais unida, soberana e fiel aos seus valores democráticos. Em meados de setembro, a ilha foi palco da Primeira Conferência Europeia de Ventotene pela liberdade e a democracia, organizada pelo Escritório do Parlamento Europeu na Itália em parceria com a representação da Comissão Europeia no país.
No jardim público, diante do edifício municipal, uma multidão concentrou-se em torno de vozes que ecoam a defesa dos direitos civis e do pluralismo. A vice‑presidente do Parlamento Europeu, Pina Picierno, abriu os trabalhos recordando a força simbólica do lugar: “Ventotene é a capital moral da União Europeia“, disse, invocando a memória de Spinelli, Rossi e Colorni, que nas horas mais sombrias imaginaram “uma Europa diferente, livre e federal”. Para Picierno, o presente exige ação. “Temos hesitado tempo demais — afirmou — ao delegar a outros questões centrais como a defesa, a energia e o papel geopolítico. Se queremos voltar ao centro da História, precisamos decidir ser uma potência democrática global: uma Europa mais forte e mais soberana, não dependente das decisões alheias, mas livre e autorevole.”
Uma mensagem do Presidente da República, Sergio Mattarella, sublinhou a transformação simbólica da ilha: de lugar de reclusão sob regimes autoritários a farol inspirador dos valores da paz e da democracia que moldaram a trajetória europeia. Essa narrativa de renascimento — tão cara a quem cultiva legados culturais e civis — iluminou o tom do encontro.
Ao longo do dia, chegaram a Ventotene personalidades e símbolos das lutas atuais contra o autoritarismo. Entre as participantes estiveram Julija Navalnaya, esposa de Alexei Navalny; Shirin Ebadi, Nobel da Paz e referência nas batalhas pelos direitos humanos e das mulheres no Irã; Oleksandra Matviichuk e Oleksandra Romantsova, vozes da resistência civil ucraniana e laureadas com o Nobel da Paz; Sviatlana Tsikhanouskaya, vencedora do Prêmio Sakharov e líder da oposição bielorrussa; Yuliia Paievska “Taira”; Wu’er Kaixi, figura das manifestações de Tiananmen de 1989 e atual secretário-geral da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento de Taiwan; e Badiucao, artista e ativista nascido na China. Suas presenças lembraram que a luta pela democracia não é abstrata: é uma batalha cotidiana pela dignidade e liberdade.
Ativistas e representantes civis relataram experiências de repressão e resistência, renovando o apelo para que a Europa não se limite a retóricas, mas avance com políticas concretas: coordenação em defesa, autonomia energética e um papel diplomático mais decisivo. Entre os temas em debate, ressurgiu a urgência de articular respostas comuns a crises geopolíticas, proteger refugiados e defender defensores dos direitos humanos — uma agenda que semeia esperança e responsabilidade.
Em Ventotene, a conversa pública foi também um convite à ação coletiva. Como curadora de futuro e observadora de trajetórias humanas, vejo neste encontro a possibilidade de semear inovação nas práticas institucionais: alinhamentos estratégicos que tornam a União mais resiliente, políticas que traduzam solidariedade em instrumentos práticos, e uma diplomacia europeia que fale com autoridade moral e capacidade factual.
Não se trata de otimismo ingênuo, mas de um compromisso lúcido: iluminar novos caminhos para que a Europa exerça uma soberania democrática à altura dos desafios do século XXI. Ventotene recorda que as grandes transformações nascem onde se cultiva memória, coragem cívica e vontade política. Que este encontro seja semente de políticas e iniciativas que traduzam inspiração em legado.
La Via Italia acompanhará os desdobramentos desta conferência e as propostas que poderão definir os próximos passos da União: uma Europa mais forte, mais autônoma e mais fiel aos seus valores fundadores.






















