Por Aurora Bellini — A União Europeia está diante de um cruzamento decisivo: não se trata apenas de regular a tecnologia, mas de construir uma presença ativa nela. No horizonte, a palavra-chave é soberania tecnológica. Num mundo em que alianças se remodelam e a corrida pela inteligência artificial avança sob o impulso de Estados Unidos e China, a Europa precisa semear recursos e luz própria para não ficar à sombra da Silicon Valley.
No seu discurso sobre o Estado da União, em meados de setembro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deixou clara a ambição: “Uma inteligência artificial europeia é essencial para a nossa futura independência”. A estratégia de Bruxelas combina duas vertentes: regras e investimento. De um lado, o continente já inaugurou um marco regulatório pioneiro — o AI Act, que entrou em vigor em 2 de agosto de 2024 — com o objetivo de garantir que os sistemas de IA usados no espaço europeu sejam seguros, éticos e confiáveis. De outro, há a urgência de fomentar plataformas e infraestruturas próprias.
Para avançar, a Comissão anuncia ações concretas: do Cloud and AI Development Act ao projeto denominado Quantum Sandbox, passando por um primeiro envelope financeiro de cerca de um bilhão de euros para integrar a IA na indústria e nas PME. Esse capital inicial é pensado para desbloquear projetos-piloto, acelerar a adoção em cadeias produtivas e, sobretudo, para reter startups europeias que hoje migram para ecossistemas mais capitalizados.
O equilíbrio entre regulação e inovação alimenta um debate intenso. O ex-primeiro-ministro Mario Draghi advertiu que algumas disposições do AI Act podem criar “incerteza” e sugeriu cautela para não tolher avanços técnicos: propõe que a aplicação de regras sobre sistemas de alto risco—em setores como saúde e infraestruturas críticas—passe por avaliações ex post, avaliando modelos com base em resultados e riscos efetivos. A proposta de Bruxelas para prorrogar o calendário de implementação da segunda fase além de agosto de 2026 é reflexo desse diálogo entre prudência regulatória e velocidade tecnológica.
Do lado do Parlamento Europeu, vozes como a do deputado Brando Benifei, co-presidente do grupo de monitoramento da implementação do AI Act, resumem a postura: “Não devemos renunciar à capacidade de liderar o debate regulatório, mas servem mais investimentos”. Em outras palavras, proteger consumidores e preservar direitos não pode ser desculpa para abandonar a ambição industrial.
A mensagem prática é clara: regras sem ecossistema são apenas linhas no papel; investimento sem normas claras arrisca abusos. A chave será combinar proteção e impulso tecnológico — cultivar um terreno fértil onde talentos e recursos possam florescer sem serem sugados por polos externos. É um convite a iluminar novos caminhos para a inovação europeia, tecendo políticas públicas que alavanquem o capital privado e fortaleçam redes de pesquisa, incubação e produção.
Para além das estratégias técnicas, trata-se de um projeto civilizatório. Construir soberania tecnológica é também preservar valores: privacidade, transparência, segurança e um mercado justo que valorize o talento local. Se a Europa conseguir conjugar investimento robusto, retenção de startups e regulação inteligente, o continente poderá transformar regras em vantagem competitiva — e não apenas em caixa de normas. É hora de semear ações que produzam frutos reais, cultivando um renascimento tecnológico com raízes europeias.
Em suma: a inteligência artificial pode ser tanto um espelho das desigualdades globais quanto uma lâmpada capaz de revelar novos caminhos. A escolha da União será, em grande parte, a de investir luz — e fazer dela legado.





















