Por Aurora Bellini — A Itália tem uma história singular de economia social, um tecido de práticas e instituições que combina impacto econômico com sentido comunitário. O diagnóstico de especialistas é claro: a transformação não se impõe de cima para baixo; ela floresce quando atores diversos se conectam, especialmente os jovens, que são a força motriz para renovar práticas e abrir novos caminhos.
O economista Paolo Venturi, diretor do centro de estudos Aiccon da Universidade de Bolonha, lembra que o país acumula um patrimônio de experiências “único no mundo” no campo da economia social. Para Venturi, esse capital histórico pode transformar a Itália numa referência quando outros ventos europeus apontam em direção contrária. O que falta, diz ele, é organizar as diversas realidades como uma verdadeira aliança: agir de forma conjunta, com estratégias coordenadas e compromisso mútuo.
O recente Plano Nacional da Economia Social, aprovado pelo governo no outono passado, representa um passo concreto nessa direção. A Lei de Orçamento dotou o plano de um orçamento inicial — destinado à constituição de um comitê de especialistas para coordenar as ações — uma sinalização política e institucional importante. Como observa o advogado Gabriele Sepio, membro do Conselho Nacional do Terceiro Setor, a formação de um intergrupo parlamentar transversal em 2025 foi outro gesto relevante: partidos de diferentes espectros sentaram-se à mesa para discutir o tema — um indício de que a pauta ganhou centralidade.
Venturi sublinha uma distinção valorosa: enquanto, em boa parte da Europa, os temas da economia social foram deslocados do âmbito dos investimentos no crescimento para a esfera das políticas de emprego, o plano italiano faz algo diferente e estratégico. Ele está integralmente alocado ao Ministério da Economia e das Finanças. Este não é um detalhe técnico: significa reconhecer a economia social como componente plena da economia nacional, com potencial de contribuir para o crescimento e a inovação social, não apenas para políticas setoriais.
Ao mesmo tempo, Venturi lembra com lucidez que a abertura política europeia foi a fagulha externa que ajudou a impulsionar a ação italiana: a União exerceu um papel de estímulo, e só depois de algumas instâncias de pressão o plano ganhou forma. Ainda assim, a resposta veio — e com apoio da sociedade civil, que participou ativamente do processo de construção do documento divulgado pelo Ministério no fim de outubro.
O desafio, portanto, é trançar esforços: instituições públicas, organizações do terceiro setor, empresas sociais, fundações e, sobretudo, jovens que tragam inovação, energia e novas formas de cooperação. É preciso cultivar uma coesão que não apague a diversidade, mas a potencie; semear políticas que iluminem caminhos para um crescimento mais justo e sustentável.
Em tempos em que políticas públicas parecem muitas vezes feitas no alto de torres distantes, a lição é clara e inspiradora: a mudança real nasce do solo fértil da sociedade — onde se cultivam relações, confiança e propósito. Se a Itália aprender a mover-se como uma aliança, colocando a economia social no centro do roteiro econômico, estaremos diante de um renascimento que pode iluminar horizontes além-fronteiras.
Fonte: La Via Italia — adaptação do conteúdo original do Corriere della Sera (link abaixo).






















