Por Chiara Lombardi — No cenário onde o entretenimento encontra a memória coletiva, as lembranças assumem o papel de roteiro. Hoje, em um encontro carregado de afeto e melancolia, Gaspare — nome artístico de Nino Formicola — voltou ao palco da memória para evocar os últimos meses de vida do parceiro de cena e vida, Zuzzurro (Andrea Maria Cipriano Brambilla).
Convidado do programa La volta buona, apresentado por Caterina Balivo, Gaspare recuperou detalhes que revelam como o trabalho se tornou, para Zuzzurro, uma forma de resistência. Mesmo diante de uma doença que foi descrita como “rápida e violenta”, ele escolheu permanecer sob as luzes do palco, transformando o ofício em um gesto de recusa ao silencio e ao esquecimento.
Os fatos são precisos e cortantes como um close final: em julho de 2012, os exames não indicaram problemas. Mas, em janeiro de 2013, durante a turnê do duo, veio o diagnóstico. O tumor nos pulmões tinha cerca de 9 cm, e os médicos deram um prognóstico sombrio — cerca de oito meses de vida. Gaspare relembra a noite em que recebeu a notícia pelo secretário: “Aspettavo che Andrea mi passasse a prendere…”, e o silêncio que se seguiu tornou-se uma cena que ele jamais esquecerá.
“Eu me lembro daquela noite para sempre. Olhei para ele sabendo que o perderia em poucos meses. É uma memória terrível para mim, pior até que a própria morte”, confessou Gaspare, revelando a crueza de um apego que se mantém quando as cortinas se fecham.
Mesmo confrontado com a gravidade do quadro, Zuzzurro manteve-se ativo nos projetos artísticos: os dois conversavam sobre novos planos até dois dias antes do falecimento. Houve uma crise severa que antecipou o adeus, mas a convicção do artista em superar a fase foi um gesto final de coragem. Antes do funeral, existia a expectativa de uma coletiva de imprensa para tornar pública a situação; Gaspare foi à coletiva sozinho, porque Zuzzurro já estava em estado crítico.
Mais do que a cronologia dos fatos, o relato de Gaspare é um espelho do nosso tempo — a forma como artistas transformam a adversidade em narrativa, como o palco se converte em território de resistência. O público, acrescentou ele, não os esqueceu: “O público não nos esqueceu e isso me faz pensar que fizemos bem o nosso trabalho”. É uma fala que reverbera como um eco cultural, confirmando que a lembrança coletiva é também parte do legado artístico.
Como analista cultural, penso neste episódio como um refrão que retorna ao repertório cultural: a comédia que hospeda a tragédia, o riso que persiste como última cena. Zuzzurro e Gaspare não foram apenas um duo; foram uma narrativa partilhada que hoje se conserva na memória do público e nos bastidores da história do entretenimento.
Chiara Lombardi, para Espresso Italia — reflexão sobre memória, palco e a semiótica do viral que molda nossa identificação com os artistas.





















