Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura ética artística e consciência cívica, o maestro Zubin Mehta, de 89 anos, anunciou que cancelou todos os concertos em Israel previstos para este ano. A decisão, declarada em entrevista ao jornal India Today, é uma resposta direta às políticas do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu em relação aos palestinos.
Maestro há quase cinco décadas à frente da Israel Philharmonic Orchestra, Mehta justificou: “cancelei todos os meus compromissos em Israel este ano porque não compartilho a forma como Netanyahu trata toda a questão palestina”. Ele acrescentou ainda a esperança de que Netanyahu seja derrotado nas próximas eleições. Trata‑se de um posicionamento público de forte carga simbólica, que transforma decisões de programação musical em um ato político.
É importante lembrar que, no final do ano passado, Mehta já havia cancelado alguns concertos em Israel, oficialmente por motivos de saúde. Agora, porém, a motivação assume uma conotação explicitamente política, e o gesto reverbera além das salas de concerto, atraindo atenção internacional no universo da música clássica e na esfera pública.
No calendário imediato do maestro, constam apresentações fora de Israel: Mehta conduzirá a Orchestra del Maggio Musicale Fiorentino na quarta‑feira, 21 de janeiro, às 20h; ele retorna a Florença em 6 de fevereiro para um programa sinfônico integralmente mozartiano, que seguirá em turnê por Lugano (7 de fevereiro) e Lucca (10 de fevereiro).
Como analista cultural, vejo esse episódio como um espelho do nosso tempo: quando uma figura tão emblemática do repertório clássico transforma a agenda artística em forma de protesto, o evento deixa de ser apenas um cancelamento e se torna um ponto de inflexão no diálogo público. É a semiótica do viral aplicada à música erudita — um refrão que ressoa entre memória, responsabilidade e representação política.
O gesto de Mehta também levanta perguntas sobre o papel do artista na cena contemporânea. Se, por um lado, a arte pode oferecer refúgio e transcendência, por outro ela participa do roteiro oculto da sociedade, refletindo e influindo nas narrativas que moldam o debate público. A recusa em tocar em determinado território transforma um palco em ponta de vista: o maestro não apenas silencia notas — ele amplifica uma posição ética.
Para o mundo musical, resta medir consequências práticas: repercussão na imprensa, reações de instituições culturais e possíveis adesões de outros artistas. No campo político, episódios assim alimentam o debate sobre boicote cultural, diplomacia das artes e responsabilidade moral de grandes personalidades.
Independentemente de concordâncias ou discordâncias, a atitude de Zubin Mehta reforça a noção de que a cultura não é ilha; é parte do tecido social. Em plena efervescência das redes e das narrativas transnacionais, decisões como esta reverberam como um eco cultural — um convite a olhar além do palco e a questionar o roteiro coletivo.






















