Por Chiara Lombardi — Emissoras que reconstroem memórias: a partir de segunda-feira, Canale 5 exibe quatro episódios especiais para celebrar os 30 anos de Zelig na televisão (o clube de cabaré, por sua vez, completa 40 anos). No centro da celebração, a dupla que se tornou ícone do formato: Claudio Bisio e Vanessa Incontrada, que retomam o papel de anfitriões para revisitar um laboratório cômico que virou referência.
“Para mim foi mais do que um pedaço de vida”, diz Bisio, reconstituindo a origem quase acidental do programa: “uma noite chegaram as câmeras mais para guardar do que para pensar em um produto de televisão — foi um início não previsto, uma gênese torta, não canônica, sem que soubéssemos. Não imaginávamos que aquilo que fazíamos iria ao ar”. É a imagem de um roteiro improvisado que, aos poucos, transformou-se em dispositivo cultural.
Para Vanessa Incontrada, o palco foi “casa, mas também escola”. E da escola saíram talentos que invadiram o imaginário popular: nomes como Checco Zalone e Aldo, Giovanni e Giacomo surgiram dali, assim como uma geração de humoristas que encontrou no microfone do cabaré seu primeiro espelho público.
Mas o espelho também deforma: “foi uma fórmula que primeiro fez escola e depois, inevitavelmente, cumpriu seu tempo”, analisa Bisio. A comédia contemporânea, observa ele, é hoje muito mais contaminada pelas dinâmicas dos redes sociais: “mais curta, mais veloz. Em qualquer assunto, depois de uma hora você já tem memes e piadas — isso atrapalha um programa televisivo que, por sua natureza, não é diário. Pode acontecer de você ter a mesma ideia, mas quando chega depois parece que copiou”.
Incontrada acrescenta outra camada: as plataformas mudaram o mapa de escolhas do público. “Hoje a audiência tem múltiplas possibilidades. E talvez a comédia na TV tenha sofrido de superexposição”, diz ela, lembrando que o ritmo e o consumo alteraram o modo como o humor se reconfigura.
Os picos de fama foram intensos. Bisio recorda um verão em que o grupo precisou circular com escolta policial, e o ano em que decidiram disputar a visibilidade de Sanremo: “quando se chega a esse nível, dá um frio na barriga. Foram anos incríveis”.
Do palco passaram personagens que se tornaram difíceis de replicar fora dali: o Oriano Ferrari de Marco Della Noce, o filipino de Marzocca, o vereador Cangini de Paolino Cevoli — figuras tão codificadas que, na vida cotidiana, pareciam persistir. Por outro lado, foi mais simples para os monologuistas, menos marcados por persona: Geppi Cucciari, Teresa Mannino, Antonio Ornano, Gioele Dix estão entre aqueles que souberam transitar com eficácia.
Entre Bisio e Incontrada, a relação ultrapassa o profissional: “Vanessa tem um talento cômico único. Eu sou sempre agitado; estar com ela me acalma”, diz ele, em tom de cumplicidade. A provocação é mútua e afetuosa: Bisio não perde a chance de brincar — e ela revida com misto de ironia e mistério. “Às vezes eu finjo que não entendo, outras vezes juro que não sei o que está acontecendo”, responde Incontrada, acrescentando que prefere deixar o público na dúvida sobre até que ponto há ensaio e até que ponto há jogo.
O vínculo artístico foi também pedagógico. “Claudio foi um grande ponto de referência para mim. Aprendi com ele a improvisação e a não ter tabus: naquele palco dissemos de tudo, até o que era mais audacioso”, confessa a apresentadora. Essa ausência de restrições — a coragem de tocar em zonas incómodas — foi, talvez, parte do roteiro oculto que fez de Zelig um eco cultural tão potente.
Em tom mais leve e, ao mesmo tempo, revelador, Bisio toca também em cifras que simbolizam trajetórias: ao ser questionado sobre Checco Zalone, ele brinca sobre o sucesso de bilheteria — “Zalone? Eu fiz 30 milhões no cinema, mas os 60 dele eu teria gostado de ganhá-los eu” — uma fala que contém, por trás do riso, a reflexão sobre ascendência, sorte e mercado.
Os quatro episódios comemorativos na Canale 5 não prometem apenas nostalgia; querem mapear o impacto — e as reverberações — de um formato que ensinou uma geração a rir da própria imagem. Em tempos em que o humor se fragmentou em clipes e tendências efêmeras, revisitar Zelig é como reler um roteiro coletivo: entender de onde vieram certas piadas, que personagens ficaram e por que alguns arquétipos resistiram ao tempo.





























