Por Chiara Lombardi — Em um gesto que se lê como um refrão contra a fragmentação do mundo, chega à Rai, no 8 de março, o documentário sobre Women Aid, o projeto idealizado por Valeria Altobelli que transforma a música em um espelho do nosso tempo. Dirigido por Daniele Biggiero, o filme será exibido durante o Speciale Tg1 e ficará disponível em Raiplay, oferecendo ao público uma narrativa onde a arte se faz ponte e não fronteira.
Nasceu como um impulso em Los Angeles, em 2018, quando Altobelli convidou a consagrada autora Diane Warren para compor um inno à sorellanza. Em poucos meses, o estúdio de Warren reuniu um coro internacional de vozes femininas que cantaram e recitaram um texto adaptado por Altobelli em mais de vinte línguas. A partir daí, a ideia cresceu: construir um movimento artístico-musical itinerante, um novo Live Aid pensado e protagonizado por mulheres.
O projeto é ambicioso e simbólico: 150 mulheres de 150 países subindo juntas ao palco em locais carregados de memória, de Paestum a Metaponto. A proposta de Valeria Altobelli não é apenas reunir talentos; é criar um “Olimpo de paz”, onde a música e a arte atuam como linguagens universais capazes de elevar ao divino — uma via pulchritudinis que inspira novas gerações.
No documentário, vemos artistas que, em outros mapas geopolíticos, pertenceriam a nações em confronto, partilharam palcos lado a lado. É essa justaposição que confere ao projeto sua força simbólica: sob o manto da performance, ergue-se a mensagem de respeito, paz e sororidade. Como lembra Altobelli, a música se revela como um roteiro oculto da sociedade, capaz de reframe e cura cultural.
O elenco instrumental desse coro planetário é uma geografia sonora: bateristas de Hong Kong e do Vietnã, guitarristas do Paraguai, Quênia, Gana, Chipre e Índia; pianistas da Ucrânia e do Brasil; baixistas do Reino Unido e dos Balcãs; cordas provenientes de Cuba, Austrália, Polônia e Estados Unidos. Essa tessitura multicultural transforma cada apresentação em um mapa vivo de trocas e memórias.
Altobelli tentou inclusive reproduzir a escala do Live Aid ao convidar Bob Geldof — cuja resposta, segundo ela, foi de impossibilidade —, mas prosseguiu com sua visão. O documentário de Biggiero capta não apenas os concertos, mas os bastidores dessa construção solidária: voluntárias de Missão, as 150 mulheres que deram corpo à ideia, e a logística afetiva que sustentou o evento.
Assistir a Women Aid no 8 de março é mais do que ver um filme sobre música; é confrontar um manifesto estético e ético. A obra se posiciona como um espelho cultural que nos convida a refletir por que, em pleno século XXI, ainda precisamos reafirmar aquilo que a arte declara de modo tão simples e profundo: a beleza pode ser um chamado à paz e à resistência.
Em tempos de polarização, o projeto é um exemplo de como a criação coletiva pode ser instrumento de diálogo — uma semiótica do viral que não explode em ruído, mas em humanidade.






















