Por Chiara Lombardi — Em meio ao brilho das luzes do festival e ao roteiro midiático que sempre acompanha Sanremo, surge um pequeno grande espelho do tempo: o jovem cantor e rapper Welo, nascido Manuel Mariano em Lecce em 1999, que assinou o jingle de abertura da 76ª edição do festival. A canção Emigrato, escolhida por Carlo Conti para marcar a entrada do evento, tem circulado com força nas redes e já desponta como um dos temas mais comentados da kermesse.
O jingle não é apenas um refrão fácil de lembrar; é um pequeno manifesto sobre a mobilidade e a memória: “Devo emigrare, dicono devi andare fuori, sempre fuori”. Nessa batida curta e direta, Welo coloca no centro do palco a questão meridional, transformando a canção de abertura em um raio-x cultural do presente. Há, por trás do tom popular, um roteiro oculto da sociedade que fala de identidade, perda e desejo de pertença.
Mas nem tudo é aclamação. Nas redes, o artista passou a ser alvo de críticas por seu acento salentino — pedidos para que faça cursos de dicção e até ataques mais ásperos. A resposta de Welo foi simples e cheia de dignidade: sorriu e disse que tem orgulho do seu sotaque. A reação expõe uma velha tensão italiana: por que o dialeto do Sul precisaria ser ocultado, enquanto variações do Norte são muitas vezes exibidas como troféus?
O episódio ganhou ainda camadas simbólicas. Antes de subir ao palco da cidade dos fiori, Welo presenteou Carlo Conti com um vassoio de pasticciotti, o doce típico do Salento. Conti aceitou o gesto, sem foto oficial, mas o presente atravessou as redes: o perfil pasticciottolovers publicou imagens de apoio e lembrou que a pertença é um valor e que as diferenças devem ser celebradas. “O acento, seja salentino, calabrês, siciliano ou napolitano, é um patrimônio”, escreveram, em um eco cultural que pretende reframear a narrativa do preconceito.
Até a confeitaria local entrou no jogo simbólico: o pasteleiro Andrea Colitta, de Cellino San Marco, criou o “Welo di pasticciotto”, uma releitura que une a massa frolla salentina ao recheio inspirado nos baci di Sanremo. A descrição do doce — uma fusão entre Puglia e Liguria, onde a sobremesa encontra o beijo do festival — funciona como metáfora gustativa de encontro entre diferenças.
No centro desse pequeno conflito midiático está algo maior: a música pop como espelho do nosso tempo. Emigrato não é apenas um jingle; é um fragmento narrativo que convoca debates sobre mobilidade, memória familiar — a canção é dedicada à mãe de Welo, falecida em 2020 — e sobre como a língua e os sotaques se entrelaçam com a identidade. Assim como um bom filme, o episódio nos pede para olhar além do brilho e perguntar por que certas vozes ainda precisam se justificar para existir.
Enquanto o jingle viraliza e o debate nas redes esquenta, Welo segue em frente: com uma mala cheia de sonhos, o jovem salentino faz do palco uma paisagem de resistência afetiva. E se a cultura popular é o roteiro oculto da sociedade, então a resposta dele — uma declaração de orgulho — é, ao mesmo tempo, cena e contracena.






















