O cult We Will Rock You retorna aos principais palcos italianos com uma energia renovada e uma atualidade que soa como um espelho do nosso tempo. A montagem, escrita por Ben Elton em parceria com Roger Taylor e Brian May, parte do legado incontestável do Queen para construir um roteiro onde a música é a chama que reacende a liberdade.
A nova turnê, que começou em dezembro passado em Gorgonzola, na periferia de Milão, percorre cidades importantes da Itália e terminará no dia 19 de abril no Teatro Nazionale Italiana Assicurazioni, em Milão. No núcleo da peça, as canções imortais do Queen são entoadas em língua original e executadas rigorosamente ao vivo, transformando cada número musical em um evento que reafirma o poder comunitário do espetáculo.
Ambientado em uma futura distopia não tão distante, o enredo imagina um mundo onde a homogeneização e a censura apagaram a criatividade: a música foi proscrita e a expressão reprimida. Nesse cenário, um grupo de rebeldes — os Bohemians — decide confrontar o sistema e restaurar o rock e a liberdade de ser. É uma narrativa que funciona como um roteiro oculto da sociedade, revelando as tensões entre conformidade e emancipação.
“A história e as canções do Queen se fundem em um relato poderoso e atual, um hino à música como força revolucionária e símbolo de uma visão compartilhada, capaz de abrir caminho para um futuro mais humano e autêntico”, diz a diretora Michaela Berlini em entrevista. Berlini atualizou diálogos e referências para aproximar o texto dos dilemas contemporâneos, reforçando que a peça, embora ambientada num futuro extremo, ecoa preocupações presentes: a pressão à uniformidade, a manipulação ideológica e a necessidade de afirmar a própria identidade.
O novo elenco reúne intérpretes de perfil renovado e experientes: Giorgio Adamo interpreta o inquieto Galileo; Asia Retico dá vida à efervescente Scaramouche; Giada Maragno é a implacável Killer Queen; Davide Bonafini e Francesco Cazzolla interpretam Khashoggi e o determinado líder rebelde Brit, respectivamente. Retornam ao palco Alessandra Ferrari, agora na pele da carismática Oz, e Massimiliano Colonna, que encarna Pop desde 2008. O ensemble que alterna Yesmen/Yeswomen e os Bohemians inclui Monica Ruggeri, Davide Tagliento, Giulia Gerola, Erica Mariniello, Emily Riva, Mirco Di Santo, Alessandro Savino e Gian Maria Picciau.
Para Berlini, a atualização foi uma dupla responsabilidade: respeitar canções lendárias e, ao mesmo tempo, tornar a fábula mais relevante. “A peça é feita de rebelião, amor, coragem e da necessidade de expressar-se num mundo que nos quer homogêneos, doutrinados e funcionais ao sistema”, afirma. Assim, a renovação dos diálogos não é um artifício: é um reframe que destaca como a resistência cultural e o valor do rock ainda funcionam como instrumentos de salvação.
O espetáculo mistura humor e profundidade. A distopia é construída com personagens-clichê que representam o poder em suas faces mais reconhecíveis, enquanto a música atua como um código de libertação. Em tempos de polarização e algoritmos que modelam preferências, We Will Rock You se apresenta menos como entretenimento escapista e mais como um manifesto performático — o roteiro oculto que nos lembra da potência humana quando a arte recupera seu papel de espelho e motor de transformação.
Como analista cultural, vejo no retorno desta produção uma confirmação: shows que dialogam com memória coletiva e urgências contemporâneas não apenas entretêm, mas reposicionam a experiência coletiva. O musical dos Queen volta, portanto, não só para celebrar um catálogo imortal, mas para reacender perguntas que permanecem essenciais.






















