Por Chiara Lombardi — Há imagens que funcionam como espelhos do nosso tempo: preto e branco, um menino com o dedo nos lábios e um olhar decidido. É com essa fotografia evocativa que Vasco Rossi voltou a marcar presença no imaginário do Festival de Sanremo, apesar de não ser um frequente convidado do palco nestes últimos anos. A publicação no Instagram, acompanhada de uma mensagem de “Buon Sanremo”, reaviva um roteiro íntimo e público — o início de um destino que nasceu na ausência da televisão em casa e no encanto de um bar de vila.
Na lembrança do cantor, a televisão era um objeto de fascínio: o pequeno Vasco via o Festival no bar Cimone, único lugar do povoado a ter aparelho. Em casa, sem TV, a mãe transformava a mesa de jantar em palco doméstico — ela o colocava para cantar diante das amigas, sonhando com uma filha ou filho que fosse mais que comum. “Queria uma rockstar e teve uma”, escreve hoje, com ironia e orgulho. É a mesma mãe que, sem imaginar, plantou a dramaturgia de quem viria a ocupar grandes palcos.
Quando o destino o levou ao Teatro Ariston, a insegurança não cabia no figurino. Vasco Rossi lembra que “no palco você tem que estar seguro”, citando como referência ninguém menos que Mick Jagger, uma figura que modela presença e atitude. E se a segurança às vezes cedeu lugar ao imprevisto, alguns desses instantes se tornaram icônicos. Em 1982, durante a apresentação de “Vado al massimo”, houve o famigerado episódio do microfone que caiu: o fio curto conspirou contra a performance e o microfone foi ao chão. Não houve recuperação imediata — por respeito às regras do show, ele não o recolheu — e nos bastidores, conta-se, Claudio Cecchetto explodiu em indignação. O que poderia ter sido apenas um tropeço técnico entrou para a mitologia do momento.
As posições na competição foram modestas: em 1982, um resultado quase no fim da tabela — penúltimo lugar — e, no ano seguinte, com “Vita spericolata”, uma colocação baixa (25º). Mas as notas das jurias pouco importaram diante da eletricidade que as canções transmitiam. Esses números e contradições sintetizam um paradoxo do Festival: sem vitórias, Vasco Rossi deixou uma impressão indelével, transformando canções em hinos geracionais que pulsaram muito além do Palco di Sanremo.
As memórias, para ele, parecem fragmentos de um roteiro mais amplo: o bar da infância, a mãe que o colocava no centro, o microfone que cai, as vozes que rugem nos bastidores. Sanremo foi um ponto de partida, não um destino final. Entre quedas, feridas reais — ele já cantou tendo até duas costelas fracturadas em outros shows — e uma obstinação teimosa, construiu-se a figura do “Blasco” mais sólida do que qualquer troféu poderia atestar.
Ao revisitar essas cenas, percebemos por que alguns artistas se tornam espelhos culturais: não porque vencem um concurso, mas porque suas falas e falhas reenquadraram a paisagem sonora e emocional de uma geração. O episódio do microfone, a ira de Claudio Cecchetto e a mãe que sonhou com uma estrela compõem um pequeno cinema doméstico — o roteiro oculto da sociedade — que conta tanto sobre Vasco Rossi quanto sobre o público que o consagrou fora das placares oficiais.
Em tempos de festivais que se reinventam, a memória persiste como um farol. Sanremo foi para ele um começo, não a chegada. E essa diferença, em termos culturais, explica por que certas canções continuam a ressoar: elas não foram premiadas pelo júri, mas se tornaram trilha sonora de vidas.




















