Por Chiara Lombardi — Em uma conversa franca para a capa do semanal F (Cairo Editore), celebrando os 30 anos do Zelig, a atriz e apresentadora espanhola Vanessa Incontrada aborda com precisão cultural e pessoal o que significa viver sob o olhar público: o corpo como um registro de memória, emoções e escolhas. A entrevista reacende um debate que é espelho do nosso tempo: como a sociedade lê e julga as transformações do corpo feminino.
Incontrada, que nos últimos anos havia sido voluntariamente colocada como símbolo da body positivity, responde às críticas e às suspeitas surgidas após seu recente emagrecimento, amplificadas pelas redes sociais. Traduzindo a sua afirmação central: “penso que o corpo é uma história que muda, uma linguagem que conta modificações, medos, conquistas” — palavras que convidam a um reframe sobre o corpo não como objeto fixo, mas como um roteiro em movimento.
Ela lembra que seu corpo “mudou porque amei, porque sofri, porque ri, porque me tornei mãe”. É uma sentença simples, mas potente: há uma semiótica pessoal por trás de cada alteração física. Em tempos em que o viral atua muitas vezes como tribunal, Vanessa recusa a estigmatização e defende o direito ao fluxo. “Não me detenho nos comentários e sigo adiante. Sempre haverá quem julgue mal e quem diga que eu tenho razão”, afirma, com a calma de quem conhece a paisagem digital e seus julgamentos rápidos.
Vanessa Incontrada também lança uma provocação civil: “Sempre me pergunto por que um homem nunca é observado em suas transformações”. A pergunta devolve ao leitor a percepção de um padrão cultural europeu e global — homens e mulheres não ocupam o mesmo lugar no roteiro público do corpo. Esse contraste é, em si, um espelho do nosso tempo, uma peça do roteiro oculto que regula a visibilidade e o valor social do corpo feminino.
Em uma passagem que parece dialogar com a própria história da representação midiática, ela dirige-se diretamente às mulheres que um dia a viram como referência: “Quem te quer bem te aceita e aceita qualquer decisão que tomes, sobretudo se essas escolhas te fazem bem”. E prossegue: “A maior liberdade que me concedi foi parar de perguntar se eu era suficiente para os outros e começar a me perguntar se eu era verdadeira para mim”. Essa ideia — de colocar a autenticidade acima da conformidade — é um manifesto íntimo que ressoa com movimentos culturais mais amplos que reivindicam autonomia sobre o corpo e a identidade.
Como observadora do zeitgeist, vejo nessa declaração a conciliação entre memória corporal e agência contemporânea: o corpo como arquivo e como possibilidade. A trajetória de Vanessa torna-se, então, mais que uma notícia sobre perda de peso; é um caso de estudo sobre como a mídia, as redes e as expectativas sociais escrevem e reescrevem narrativas sobre o feminino.
Ao insistir na liberdade de mudar, Incontrada não negou seu passado de militância pela body positivity, mas ampliou o conceito: a liberdade maior é escolher, transformar-se e manter o direito à própria evolução. É esse o ponto que desafia o leitor: abandonar o julgamento e aceitar que a mudança pode ser também uma forma de fidelidade a si.
Data da entrevista: 27 de janeiro de 2026. Nesta leitura, Vanessa não é apenas protagonista de um episódio midiático; é um espelho cultural que nos força a revisar narrativas sobre corpo, gênero e autenticidade — o verdadeiro roteiro oculto do presente.






















