Por Chiara Lombardi — A atriz e comediante milanesa Valeria Graci sobe ao palco do Teatro di Colognola com Volevo essere io, um espetáculo que é ao mesmo tempo confissão e reencontro consigo mesma. O subtítulo, “Tratto da una storia vera… la mia!”, já traça o tom: não se trata de personagens caricatos, mas daquela voz íntima que raramente chega sem artifícios.
“Volevo essere io” não é apenas um nome de cena: é um manifesto contra a obrigação de ser sempre perfeita, branca e polida para a câmera e para a plateia. Valeria explica que o desejo era trazer para o palco a própria vida, com alegrias e cicatrizes, em vez das máscaras interpretadas por anos. A peça começa na infância da artista, nos anos 80, quando assistir aos programas de variedades foi a fagulha que acendeu o sonho de ser atriz. A televisão daquela época, tão diferente da paisagem mediática atual, funcionou como espelho e roteiro de desejos.
No centro do espetáculo também estão as marcas deixadas pela vida: a separação conjugal, as dificuldades de reconstruir a rotina, exercer a profissão e ser mãe solo. Valeria confessa que escreveu o show pensando nas mulheres da sua geração — mas com um olhar que inclina a curiosidade também para os homens. “No fim, eu queria ser eu em todas as outras eu que já fui”, diz ela, em uma imagem que funciona como um reframe da identidade: envelhecer é reduzir a distância entre máscaras e rosto.
Valeria Graci começou sua carreira muito jovem — aos 17 anos já estava em cena — e foi ali, nos laboratórios milaneses como o Scaldasole, que forjou conexões fundamentais. Foi nesse circuito que Katia Follesa a viu se apresentar; a parceria nasceu entre amigos em comum, quase por acaso, e se transformou em uma década de sucessos. O duo Katia & Valeria foi, segundo Valeria, “o mais requisitado no feminino” e talvez o único do gênero a conquistar tanto espaço no país.
Sketches como a paródia do Miss Itália continuam virais nas redes, mas a vida artística seguiu também por caminhos individuais. Houve uma fase teatral entre 2024 e 2025 com Ma non dovevamo non vederci più?, e recentemente houve um breve reencontro para celebrar os 30 anos do Zelig na televisão. Apesar disso, Valeria é cristalina: “Projetos com a Katia Follesa? Não há. Percorremos estradas diferentes. E tudo bem.” Ela ressalta que a relação pessoal permanece — os filhos são amigos e o contato continua —, mas o percurso criativo tomou rotas autônomas.
O espetáculo tem início às 21h e os ingressos estão à venda por 20 euros. Mais do que uma performance, Volevo essere io funciona como um espelho do nosso tempo: um roteiro oculto sobre aceitação, imperfeição e os pequenos atos de resistência que compõem a vida cotidiana. Em cena, Valeria remove as máscaras não para expor fragilidades exibicionistas, mas para apontar que a perfeição instagramável é uma ilusão historicamente construída — e, por isso, desconstruível.
Assistir a este espetáculo é recuar e avançar ao mesmo tempo: revisitar a memória dos varietés dos anos 80 e perceber como, no eco cultural do presente, a verdade pessoal se tornou ato de coragem. É esse o convite de Valeria Graci: ver o palco como um cenário de transformação, onde a narrativa individual reescreve a semiótica do viral.





















