Valentino sempre disse frases que pareciam diálogos escritos para um guarda-roupa: «Amo il bello, non è colpa mia», «Ho il glamour nel sangue», «Cosa vogliono le donne? Essere belle». O documentário de Matt Tyrnauer, Valentino: The Last Emperor, disponível na Rete4 e em Mediaset Infinity, transforma esses aforismos em cenário e dramaturgia, oferecendo um tributo íntimo ao estilista recém‑falecido.
Filmado entre junho de 2005 e julho de 2007, com cerca de 250 horas de material reduzido a 90 minutos, o filme é um exemplo magistral de como se constrói um retrato multifacetado. As câmeras acompanham, com discrição quase reverente, o processo criativo de Valentino na elaboração da sua última coleção: os rituais com as costureiras, os ajustes minuciosos, os silêncios carregados antes de um prova — tudo isso revela tanto a genialidade quanto os repentinos humores do mestre. A montagem, feita como se compusesse um figurino narrativo, revela o roteiro oculto de uma vida dedicada ao belo.
Entre os momentos mais humanos e reveladores está a discussão com o parceiro e sócio Giancarlo Giammetti. A pequena briga sobre o uso de areia numa passarela, com Valentino dizendo «Chéri, per favore, guarda che oggi scoppia una bomba qua dentro», funciona como um espelho: por trás da vaidade e do brilho das passerelles, há uma cumplicidade resistente, feita de confrontos, concessões e lealdade. Minutos depois, diante do público internacional, Valentino agradece justamente por esse apoio constante — gesto que humaniza ainda mais o retratado.
O documentário também registra as relações com os magnatas e as musas: desde Jacqueline Kennedy, vestida por anos por Valentino, até Marella Agnelli, passando por estrelas de Hollywood. A presença de Julia Roberts — que entrou para a lenda ao vestir um Valentino para receber o Oscar por Erin Brockovich — reforça a ideia de que a moda de Valentino atravessou fronteiras e se tornou parte da memória coletiva.
Há pequenas joias de curiosidade: o tom de vermelho que leva o nome do estilista, a mão firme nas escolhas de estilo, e o relacionamento desigual com figuras do mundo dos negócios, simbolizado pela cena em que Giammetti coloca Matteo Marzotto em posição desconfortável — um lembrete de que o campo da alta-costura é também um palco de poder e hierarquia.
Mais do que um elogio fúnebre, Valentino: The Last Emperor é um estudo sobre o ofício do excesso elegante — a essência do supérfluo que, paradoxalmente, requer disciplina quase ascética. O documentário funciona como um espelho do nosso tempo: ao observar a construção de um universo estético, ele convida a pensar no papel da memória e do mito na formação da identidade coletiva.
Para quem acompanha moda apenas pelo brilho, o filme pode surpreender pelo recorte íntimo; para quem pensa o vestuário como linguagem, o documentário é uma aula sobre semiótica do glamour. Em suma, é o tributo mais refinado que o couturier de Voghera poderia receber — um reframe elegante de uma carreira que já pertence à história.






















