Hoje, ao completar 30 anos, Ultimo — nome artístico de Niccolò Moriconi — é mais do que um cantor pop: é um espelho do nosso tempo que traduz inquietações íntimas em canções que viram hinos. Nascido em Roma a 27 de janeiro de 1996, no bairro de San Basilio, Moriconi transformou uma educação clássica em uma linguagem pop contemporânea, mantendo sempre um traço de introspecção que atravessa gerações.
Filho do engenheiro civil Sandro Moriconi e da funcionária da Enel Anna Sanseverino, Ultimo cresceu em uma família com dois irmãos mais velhos, Lorenzo e Valerio. Aos 8 anos, iniciou os estudos de piano e composição no Conservatório Santa Cecilia, e já aos 14 escrevia suas primeiras canções — pequenos roteiros de vida que, anos depois, se tornariam a base de um repertório capaz de falar tanto ao jovem quanto ao público mais maduro.
Desde 2017, com seis álbuns lançados até hoje, Ultimo coleciona números que contam outra história: 85 discos de platina e 18 de ouro. Esses dados não são apenas medalhas; são a comprovação de um repertório que se inscreve no cenário cultural como um verdadeiro eco da experiência contemporânea. Sua canção “Il ballo delle incertezze” foi o cartão de apresentação para o grande público e garantiu a vitória no ramo das Nuove Proposte do Festival di Sanremo em 2018.
Um dos capítulos mais debatidos de sua trajetória aconteceu no Festival de Sanremo em 2019, quando terminou em segundo lugar no concurso principal. A colocação alimentou controvérsias: muitos fãs apontaram uma dicotomia entre o resultado do televoto — que parecia favorecer Ultimo — e a decisão das várias juntas de jurados que acabaram por consagrar outro vencedor. Foi uma cena que revelou o roteiro oculto das competições modernas, onde formatos e critérios às vezes entram em colisão com o sentimento popular.
Quanto à sua escolha de nome artístico, Ultimo já explicou em entrevistas que o apelido carrega a ideia de estar um passo atrás, de observar do fim — uma posição que alimenta seu olhar crítico e poético sobre as relações e as inseguranças humanas. Essa imagem do “último” funciona como reframe da identidade: não é derrota, mas ponto de vista.
Na vida pessoal, o cantor mantém uma postura reservada. Não é um artista de exposição fácil; prefere que a narrativa pública gire em torno das canções e não das pulsações privadas. Esse sigilo compõe parte do fascínio: em tempos de oversharing, a escolha por um recorte discreto da intimidade soa quase como um gesto contracultural, um pequeno ato de resistência em defesa do que é só dele.
O percurso de Ultimo — do Conservatório Santa Cecilia ao palco dos grandes estádios — insiste em ser, acima de tudo, um enunciado emocional. Seus acordes e versos funcionam como uma câmera lenta sobre afetos e memórias, uma semiótica do viral que não se contenta com o efêmero. E é talvez nesse entrelaçar entre técnica clássica e pop imediato que reside o seu valor: como quem reconstrói um roteiro íntimo em canções, ele nos convida a olhar para dentro, mas também a entender a própria música como um mapa coletivo de emoções.
Hoje, aos 30 anos, Ultimo continua a atuar nesse ponto de encontro entre o privado e o público, entre a precisão composicional ensinada em um conservatório e a urgência narrativa das ruas de San Basilio. Seu legado até agora mostra que a cultura popular pode ser, ao mesmo tempo, registro emocional e laboratório de identidade. E enquanto a próxima cena não chega, suas canções seguem sendo um espelho onde uma geração se reconhece e se questiona.






















