Por Chiara Lombardi — Em uma noite em que o palco de Sanremo voltou a se comportar como um espelho do nosso tempo, Ubaldo Pantani confirmou que a comédia pode ser, sim, um instrumento de observação social. Após o êxito de sua aparição com a persona de Lapo Elkann, Pantani conta os bastidores do episódio que virou assunto: o convite, a estratégia de silêncio e o encontro entre ficção e amizade.
Contrariando a versão simplista de que tudo teria sido improvisado de última hora, Pantani relata que o contato com Carlo Conti aconteceu duas semanas antes da performance. Conti, segundo o ator, consultou Fabio Fazio para acertar o “empréstimo” à Rai — e o anúncio foi mantido em segredo com a intenção de revelar a novidade em Che tempo che fa, o programa que, nas palavras de Pantani, é “o lugar onde Lapo vive a sua terceira juventude”.
Ao revisitarmos a trajetória do personagem, entende-se o refinamento desse grotesco simpático. Inventado nos anos de Mai dire gol, o personagem nascia da exaltação dos excessos. Na transição para Quelli che il calcio, com Simona Ventura, a figura foi sendo afinada até se tornar uma espécie de máscara — hoje descrita por Pantani como um gaffeur milionário profundamente bom, dotado de uma “inocência de julgamento” e de absoluta ausência de maldade.
O encontro entre a imitação e a pessoa real rende uma das passagens mais tocantes da conversa: Pantani afirma que se encontrou com o verdadeiro Lapo Elkann muitas vezes. Há entre eles uma relação de confiança construída ao longo do tempo, com confidências e um entendimento que, segundo o ator, reside nas “frequências muito silenciosas” da amizade. Lapo deverá assistir ao novo espetáculo de Pantani em Milão — e o comediante promete que também irá visitá‑lo.
O pós-Sanremo trouxe uma chuva de mensagens. Colegas como Panariello, Vernia e Lauretta enviaram saudações que calentaram o artista. O primeiro a escrever, logicamente, foi o próprio Lapo, acompanhado de emojis de aprovação. Entre os avisos inesperados, Pantani lembra o WhatsApp de Mario Giordano: ao caricaturar o jornalista, ele trabalha uma hipérbole da voz e do estilo, incluindo um traço de body shaming que, surpreendentemente, não gerou reclamação pública por parte de Giordano.
Sobre o palco de Sanremo, Pantani confessa que não é um território para amadores — pode sim “queimar” carreiras — e que sua experiência anterior no festival, em 2017, quando apareceu como Massimo Giletti, foi decisiva. A experiência o ajudou a ler o jogo do imprevisto: Sanremo funciona como um campeonato à parte, onde a gestão do inesperado define o espetáculo.
Ao falar de técnica, Pantani resume sua prática: uma mistura afiada de escrita e improvisação. O público, diz ele, foi o elemento que o permitiu viver a experiência com serenidade. E nessa serenidade se revela um ponto que me interessa enquanto analista cultural: a comédia, quando bem feita, não só diverte; ela reframeia a realidade e expõe o roteiro oculto da sociedade. A máscara do Lapo é, portanto, um gesto de espelhamento — uma semiótica do viral que traduz ansiedade, fascínio e perdão social em risos.
Como observadora, concluo que o sucesso de Pantani em Sanremo não é apenas um momento de apoteose televisiva, mas um pequeno ensaio sobre como figuras públicas e suas versões encenadas dialogam com a memória coletiva. Há aí um eco cultural que persiste: a personagem evolui, a pessoa existe, e a plateia decide, com o riso, qual narrativa permanece.






















