Em uma pequena masterclass de sátira econômica transmitida com o sorriso contido de quem observa os bastidores do poder, Ubaldo Pantani voltou a encarnar Leonardo Maria Del Vecchio no sofá de Che tempo che fa, conduzido por Fabio Fazio. A cena, curta e certeira, transformou um tema árido — os dazi — em uma anedota que funciona como espelho do nosso tempo.
No diálogo com Fazio, a imitação trouxe à tona uma lógica quase cinematográfica: a fronteira como um corte de cena onde o preço se reajusta pela imposição do Estado. “Se uma maçã chega do exterior, na fronteira colocam o dazio e você paga mais”, disse o personagem imitado. E logo em seguida, com a ironia fina que caracteriza a melhor sátira, emitiu seu conselho: “Nós recomendamos sempre ir diretamente para o exterior, consumir a maçã no local e, quem sabe, passar o fim de semana lá”.
Além do riso imediato, o episódio convida a uma leitura mais profunda. A figura de Del Vecchio — empresário reconhecível no cenário italiano — funciona, na voz de Pantani, como um arquétipo do capital que navega entre jurisdições, buscando otimizar custos e formas de consumo. A sugestão de ir ao exterior para “contornar” o encargo fiscal é menos uma receita prática e mais um comentário sobre as assimetrias do comércio global e sobre como o consumo se politiza quando atravessa fronteiras.
Em termos culturais, a imitação age como um pequeno espelho: reflete tensões contemporâneas entre proteção aduaneira e mobilidade do capital e dos consumidores. A cena do programa é um exemplo do roteiro oculto que orienta parte do debate público — humor que vira instrumento de crítica, leve mas eficaz, capaz de traduzir complexidade política em imagem inteligível para o grande público.
Do ponto de vista comunicacional, a escolha de Pantani é estratégica. Ao personificar uma voz reconhecível, o imitador não só provoca o riso, mas também estimula a reflexão sobre identidade e poder: quem pode pagar para atravessar fronteiras sem sentir o impacto de um dazio? Quem prefere consumir localmente mesmo pagando mais, por razões de identidade ou de solidariedade econômica?
Por fim, a intervenção de Pantani em Che tempo che fa funciona como um refrão cultural: uma piada que, ao invés de desaparecer com os créditos do programa, ecoa como um convite para repensar hábitos de consumo, as estratégias do capital e o papel das políticas aduaneiras. É humor com intenção, um pequeno gesto crítico que confirma como o entretenimento contemporâneo pode ser um terreno fértil para debates sobre economia e memória coletiva — aquele tipo de cena que, como bom filme, permanece na cabeça depois que as luzes se apagam.






















