Ubaldo Pantani conta ao Corriere uma carreira construída no improviso e na observação, onde a imitação vira veículo para dissecar traços de época. Foi assim no primeiro provino com Boncompagni, quando o diretor o deixou meia hora a improvisar sobre um fictício cabaré norueguês: “Me pediu para falar do cabaret norvegese. Eu disse que a gente em Oslo estava fazendo um trabalho importante e diverso”. A cena, recorda Pantani, era quase um teste de resistência — o grande capo della Rai que observava, incrédulo, perguntando se Gianni fosse mesmo certo em insistir.
Essa capacidade de transformar um exercício de improviso em personagem foi a base de uma carreira que, segundo o próprio, nasceu “por acaso” e sem urgência. Pantani se define com precisão: “Eu não sou um imitador, me considero um comico que faz imitações”. Essa distinção é mais do que semântica; é a chave para entender como ele trabalha a caricatura: voz, semelhança e texto — “pelo menos uma dessas três chaves tem que ser forte”.
Entre anedotas e bastidores, surgem episódios que dão o tom do seu humor: a reação de Pier Silvio Berlusconi, que disse não se reconhecer na máscara de Pantani, fez o comediante rir — “pensei que fosse uma piada e ri. Quando percebi que ele realmente achava aquilo, continuei rindo. Talvez eu tenha tocado um ponto sensível”. Mais contundente foi a história com Tonio Cartonio, que se ofendeu na época; Pantani conta, com cortesia e introspecção, que se encontrou com ele no verão seguinte, abraçou e pediu desculpas. “Na época a comicità non era ancora stritolata dalla woke culture e, por isso, podíamos dizer mais”, reflete.
Essa referência ao “mundo anterior” ao politicamente correto é usada com cuidado: Pantani não idealiza, apenas observa que formats e limites mudaram. “Não era necessariamente melhor, era outro mundo; e, por ser outro, a comicidade podia empurrar mais”, diz. É um comentário que funciona como um pequeno reframe: a comédia evolui conforme o roteiro oculto da sociedade — o que o público aceita é reflexo direto do tempo.
No rol de personagens famosos, o seu Lapo é, segundo ele, o exemplo perfeito das três chaves. “Mudei-o com os anos; antes era ancorado nos excessos da vida real, depois virou quase um personagem de fantasia — um rico gafeur que mantém a ingenuidade do louco e diz o que ninguém ousaria”. Buffon vira, em sua leitura, um tipo com musicalidade própria — “pensei nele como o Urso Yogi, com fonemas redondos”; Giletti, por sua vez, só explodiu como personagem quando foi colocado de pé: “era sempre visto sentado, então quando se levantou surgiu todo o esplendor de Giletti, como um airone que abre as asas”.
Pantani recorda também a generosidade de quem elogiou seu trabalho: “De Augias recebi os elogios mais bonitos”. E rememora uma prova dada por La Gialappa’s, que lhe permitiu uma hora para imitar Materazzi — um tempo raro que revela a confiança que diretores e programas depositavam no seu talento de transformar voz e gesto em análise social. Quando se irrita, brinca, vira Allegri: mais uma imagem que mistura figura pública e arqueologia de estilo.
Ao fim da conversa, fica claro que a imitação, para Ubaldo Pantani, nunca foi apenas mimetizar. É, antes, um pequeno espelho do nosso tempo, uma lente que amplia contradições e modos. A sua carreira surge como um mapa de transformações: do improviso gelado com Boncompagni às reações políticas e culturais, passando por personagens que se tornaram arquétipos televisivos. O humor, conclui ele entre ironia e ternura, é um roteiro que conta mais sobre quem ri do que sobre quem é imitado.






























