Por trás do brilho competitivo do palco do Ariston, o que realmente marcou esta edição do Festival foi um gesto que virou espelho do nosso tempo: a reconciliação estética entre gerações. Na grande final do Sanremo 2026, Tredici Pietro sobe com o seu “Uomo che cade”, mas foi o gesto filial da noite anterior que já consagrou sua vitória pessoal.
Ao longo da serata de covers, na sexta-feira 27 de fevereiro, o artista — cujo nome civil é Pietro Morandi — transformou um tributo previsto em surpresa absoluta ao convocar o pai, o eterno garoto Gianni Morandi, para dividir o palco. A canção escolhida, “Vita” (de Morandi e Lucio Dalla), foi reinterpretada: ganhou trechos em rap e se tornou um encontro geracional entre passado e presente, um pequeno reframe da memória musical italiana.
O que estava anunciado como uma performance com Galeffi, Fudasca & Band acabou cedendo lugar a um momento íntimo e público: Gianni entrou em cena de surpresa, acompanhando o filho até nas movências e compondo uma imagem tão singular quanto rara — pai e filho dividindo a história ao vivo. Ao final, emocionado, Gianni comentou: “Cantare insieme a lui è una cosa… ero tesissimo spero sia andato bene” — palavras que, traduzidas, dizem de um nervosismo que se dissolveu em afeto. Pietro, orgulhoso, respondeu com singeleza: “Sei stato bravissimo”.
Nas redes, Gianni Morandi deixou uma mensagem que traduz a intensidade do momento: afirmou que subir no palco ao lado do filho foi uma emoção diferente de todas as outras, algo que carregará para sempre. “Quando me pediu para estar ali com ele, fiquei incrédulo. Ele, tão independente, determinado a traçar seu próprio caminho… me deixou sem palavras”, escreveu o cantor veterano.
Mas quem é, afinal, Tredici Pietro? Filho de uma estrela da música italiana, ele chega ao Festival com uma poética que força a passagem pela prática: dispensou a rota fácil do talent show e prefere a lenta educação da estrada — a gavetta e a escrita que começou ainda no ensino fundamental. O sobrenome paterno, confessa, “lhe fica um pouco apertado”: a recusa das facilidades e a aversão à palavra “recomendado” se transformaram em posicionamento ético, parte de sua narrativa artística.
Seu trabalho recente, o álbum “Non guardare giù”, nasce de um período de transição marcado por mudança para Milão e pelo isolamento do lockdown. O título, como uma cena cinematográfica aberta a interpretações, pode tanto invocar movimento e viagem como um gesto de contenção num tempo que se veste de névoa — uma metáfora do momento histórico em que vivemos.
No palco final do Festival, Tredici Pietro apresenta “Uomo che cade” com a bagagem desses pequenos atos: a escolha pela autenticidade, a tensão entre legado e independência, e o diálogo com o público jovem que encontra nas rupturas estilísticas um espelho do presente. Independentemente da classificação, o verdadeiro prêmio já lhe foi concedido — um instante público de afeto e reconhecimento compartilhado com seu pai, que reverbera como uma cena decisiva num roteiro familiar.
Para além da música, o episódio sugere um questionamento maior: como a cultura popular reescreve memórias coletivas quando artistas de diferentes gerações escolhem se encontrar? O dueto de Sanremo foi, sobretudo, uma pequena câmara onde se filmou, em poucos minutos, o reencontro entre continuidade e reinvenção.






















