Tommaso Paradiso e o debut no palco do Ariston
Depois de anos de um categórico “mai a Sanremo”, o agora inevitável Tommaso Paradiso rompeu o pacto do silêncio com um simples, porém decisivo, “Voglio esserci” dirigido a Carlo Conti. Para sua primeira passagem pelo palco do Ariston, Tommaso Paradiso apresentou I romantici, um tema que descreve como “uma simples dedicatória de amor às pessoas que amo”. É uma entrada que funciona como um pequeno prólogo sentimental — o tipo de cena que, no cinema, prepara a audiência para o ato íntimo que virá.
I romantici abre como uma declaração discreta: “Vorrei avere un pianoforte in tasca, solo per ricordarmi di noi”. Essa frase funciona como um microfilme: sugere memória portátil, a tentativa de manter no bolso um objeto capaz de nos reapresentar ao outro. A canção se define, nas palavras do próprio autor, como uma “fiaba moderna” feita de gestos pequenos e sinceros — e essa escolha estética é coerente com o repertório íntimo e pop que Tommaso Paradiso vem construindo.
Trajetória e assinaturas
Nascido em Roma em 1983, com raízes na Campânia, Tommaso Paradiso ganhou notoriedade à frente do grupo Thegiornalisti, assinando cinco discos em sete anos. Nesse período, também se consolidou como autor requisitado: em 2015 compôs a música de Luca lo stesso para Luca Carboni e, nos anos seguintes, coassinou faixas para nomes como Gianni Morandi, Noemi, Francesca Michielin e Fabri Fibra. O percurso é o de um roteirista de emoções, cuja escrita se inscreve tanto no pop quanto na memória coletiva.
Desde 2021, Tommaso Paradiso lançou três álbuns solo e expandiu seu escopo artístico ao cinema, estreando como ator e diretor em Sulle nuvole. Há também uma transformação íntima: em 2025 tornou-se pai de Anna, fruto do relacionamento com a fashion startupper Carolina Sansoni — um evento pessoal que reverbera nas letras mais recentes, conferindo-lhes tons de ternura e responsabilidade.
Quem são “I romantici”?
Ao apresentar a canção em Sanremo, Tommaso Paradiso sintetizou o conceito em uma frase simples e eficaz: “Sono io, sei tu, siamo noi”. Assim como um filme que reúne protagonistas aparentemente comuns para contar uma história universal, I romantici atua como espelho do nosso tempo: celebra o cotidiano e a afetividade civilizada, o roteiro oculto da sociedade que persiste em pequenos gestos.
Cobertura: L’ultima luna de Lucio Dalla
Para a cover, Tommaso Paradiso escolheu um clássico de Lucio Dalla: L’ultima luna, lançada em 1979 no álbum Dalla. A canção é uma reflexão existencial sobre o tempo que passa, o fim de uma era e a relação entre o homem, a ciência e o cosmos — temas que reverberam como ecos culturais nas escolhas artísticas do festival. Trecho emblemático: “La vide solo un bimbo appena nato / Aveva occhi tondi e neri e fondi e non piangeva… Era l’uomo di domani.”
Ao reinterpretar L’ultima luna, Tommaso Paradiso não faz apenas um tributo formal: ele recontextualiza o legado de Dalla dentro de seu próprio universo narrativo, produzindo um reframe da realidade que dialoga com preocupações contemporâneas. É como se, por um instante, o palco de Sanremo se transformasse em sala de montagem onde passado e presente se encontram.
Em suma, a estreia de Tommaso Paradiso em Sanremo 2026 não é apenas um acontecimento de calendário musical — é um pequeno episódio do zeitgeist: um artista que volta suas lentes para a intimidade e, por meio dela, busca falar ao coletivo.






















