Por Chiara Lombardi — Em um movimento que mistura memória afetiva e reinvenção artística, Tiziano Ferro confirmou sua presença como super convidado na primeira noite do Festival di Sanremo 2026, no dia 24 de fevereiro. Anunciado por Carlo Conti, o cantor explica que tudo surgiu para celebrar os 25 anos de “Xdono”, e promete transformar o palco do Ariston em uma espécie de dance hall contemporânea.
Em entrevista ao Fanpage, Tiziano Ferro detalha o conceito: “Tudo é nato per celebrare i 25 anni di ‘Xdono’, canzone che non ho mai cantato sul palco dell’Ariston e non ho mai cantato in televisione negli ultimi 15-20 anni.” Ele recorda que a primeira vez que interpretou a canção na televisão foi no programa Domenica In, apresentado por Carlo Conti — e a simbologia desse reencontro foi essencial para aceitar o convite.
Mas a proposta vai além da simples comemoração cronológica. Como uma diretora de cena que reescreve um clássico para a plateia contemporânea, Tiziano afirma: “Sto preparando una cosa più ricca, potente, con brani ballabili e con beat.” A ideia é evitar o formato tradicional de medley — “a palavra ‘medley’ não me agrada, pois muitas vezes vira um caos” — e, em vez disso, apostar em um bloco coeso de power hits e faixas dançantes que alterem a percepção do público sobre sua discografia.
Ele confirma ainda que interpretará “Sono un grande“, mas que o foco principal será mesmo “Xdono“. A escolha reflete um gesto de reposicionamento: as baladas, embora tenham marcado profundamente a carreira e o imaginário afetivo dos fãs, não devem reduzir o artista a um rótulo único. “As baladas arrancam o coração, e então você acaba sendo ‘aquilo’ — eu quero mostrar também o outro lado, as canções que te fazem saltar”, diz o cantor.
No plano simbólico, retornar ao Ariston para celebrar um quarto de século de uma canção que não foi cantarada naquele palco é algo perto de um ritual de memória coletiva. É o clássico encontro entre o eu artístico e o espelho do nosso tempo: celebrar “Xdono” significa revisitar os códigos afetivos dos anos 2000 e recontextualizá-los em batidas contemporâneas — uma pequena reescrita do roteiro oculto da própria música pop.
Sobre a possibilidade de competir num futuro festival, Ferro mantém a porta entreaberta: “Non esclude una futura gara, ma per ora il focus è celebrare.” Por ora, a promessa é de potência e festa, não de introspecção lenta como em algumas de suas baladas mais conhecidas, por exemplo “Sere nere” — que, segundo ele, não faz parte dessa arquitetura performativa planejada para Sanremo.
Em termos práticos, a expectativa é ver um artista que utiliza a celebração como pretexto para uma reinvenção performática: um concerto que dialoga com a história pessoal, com o público televisivo e com a transformação do palco em espaço de festa. O que nos aguarda dia 24 de fevereiro é, portanto, menos um retorno ao passado do que um reframe — um novo olhar sobre uma canção que ajudou a moldar uma geração.
Se há algo para ler nas entrelinhas do anúncio de Tiziano Ferro, é a ideia de que o entretenimento funciona como uma lente ampliadora da memória coletiva. Transformar o Ariston em pista de dança é, de certa forma, transformar a nostalgia em movimento. E, como toda boa cena de cinema, o que permanece é a tensão entre aquilo que já fomos e aquilo que decidimos ser agora.






















