Por Chiara Lombardi — Em um cenário que parece um reframe da nossa própria fragilidade urbana, o veterano cineasta Tinto Brass faz um apelo que vai além da simplicidade de um pedido: é uma chamada por dignidade de mobilidade e preservação de memória. Morador de Isola Farnese há 50 anos, Brass relata à imprensa a angústia de um povoado que ficou isolado após duas quedas de terra em janeiro e que, agora, só tem acesso por uma escada de 141 degraus — uma solução que, para muitos, é inviável.
“Façam algo por Isola Farnese. Estamos isolados”, diz o diretor, lembrando que tem “problemas de deambulação” e que a escadaria improvisada “não resolve o problema de quem, como eu, não consegue subir 141 degraus“. A impressão, completa o cineasta, é a de reviver “um novo lockdown”: uma metáfora poderosa para o isolamento físico que reverbera também como um espelho do nosso tempo.
Segundo Brass, as autoridades trabalham numa alternativa que cortaria pelo parque de Veio, mas o caminho depende da segurança de uma ponte que precisa ser consolidada. Outra hipótese citada — ainda vaga nos prazos — é a abertura de um túnel. Enquanto isso, a comunidade tem de contar com soluções paliativas: a Proteção Civil e a Croce Rossa estão presentes e atentas, e há previsão até de elisoccorso em emergências, mas nada substitui um acesso cotidiano e seguro.
O drama individual de Brass soma-se ao coletivo. Sua mulher, Caterina Varzi, ressalta que a assistência existe, mas não resolve a rotina: “não é uma quotidianidade normal”. E é nisso que reside a urgência — a vida cultural e o cotidiano de um borgo histórico não podem ficar suspensos enquanto se aguarda uma solução indefinida.
Há também um tom de memória que atravessa o relato. Brass recorda Isola Farnese quando era um reduto de artistas — nomeia Philippe Leroy — e partilha imagens íntimas de um passado que atravessou décadas: do tempo em que, nos estúdios de Salon Kitty, ele era reconhecido no bar do vilarejo, até a atual preocupação com a sobrevivência do lugar.
Do lado das autoridades, Daniele Torquati, presidente do XV município, afirma que haverá novos encontros com moradores e explica que a intervenção de estabilização do costão prevê redes e paramassos, possivelmente culminando numa “galleria” de proteção ao percurso. “Teoricamente, fala-se em dois meses, porque é necessário o projeto executivo”, disse Torquati — um prazo que, para os residentes com mobilidade reduzida, soa incerto demais.
O episódio de Isola Farnese funciona, na minha leitura, como um pequeno roteiro do que ocorre quando infraestrutura, memória e fragilidade humana se encontram: há um risco não só de perda material, mas de apagamento simbólico. A necessidade é clara — soluções técnicas rápidas e sensíveis à diversidade de corpos e idades — e a cena exige que as instituições atuem com a precisão de um corte de câmera bem pensado.
“Neste momento estamos ainda bloqueados, espero que façam algo logo”, conclui Tinto Brass, enquanto a comunidade aguarda, entre a espera institucional e a urgência da vida cotidiana, que o roteiro mude para um final menos precário.





















