Por Chiara Lombardi — No coração de Roma, Teatro Sistina recebeu ontem à noite mais uma apresentação de Ti sposo ma non troppo, a peça escrita, dirigida e protagonizada por Gabriele Pignotta, ao lado de Vanessa Incontrada, Fabio Avaro e Siddharta Prestinari. Uma produção que já teve vida no cinema — levada às telas em 2014 — e que agora volta a iluminar o palco com uma visão que soa quase como um espelho do nosso tempo: o amor diante do ritmo vertiginoso das redes.
O espetáculo, em cartaz em Roma até 15 de fevereiro, combina comédia e introspecção, oferecendo um roteiro onde o riso funciona como um analgésico e a emoção como um convite à reflexão. Pignotta se define, com humor, como “um cavaliere delle emozioni”, e torna esse papel explícito em cada cena: o que vemos no palco é um combate — às vezes suave, às vezes áspero — pela possibilidade de manter uma história de amor.
Os quatro protagonistas, todos acima dos quarenta, navegam por águas sentimentais incertas. Andrea (interpretada por Vanessa Incontrada) é uma mulher apaixonada e mãe dedicada, abalada por uma traição. Luca (o próprio Gabriele Pignotta), fisioterapeuta e divorciado, divide-se entre o amor pela filha e as miragens das aplicações de relacionamento. Já Carlotta e Andrea (papéis de Siddhartha Prestinari e Fabio Avaro) enfrentam uma crise conjugal após 15 anos de casamento, que põe em xeque as certezas sobre o que é amar.
Num entrelaçar brilhante de situações, as trajetórias desses personagens colidem e se transformam: memórias e desejos esquecidos voltam à tona, crises existenciais se misturam a gargalhadas inesperadas, e gafes se convertem em momentos de revelação. A narrativa provoca uma pergunta essencial — que ecoa como um refrão doloroso e necessário: somos realmente incapazes de construir relações estáveis, ou o próprio amor exige uma evolução pessoal que não temos coragem (ou tempo) de enfrentar?
Pignotta responde sem rodeios: sofremos e nos alegraremos, ora leves, ora pesados; porém, vale a pena perseguir nossas paixões. Vivemos uma humanidade em mutação, habituada a “aproveitar a vida no tempo de um reel” — uma ilusão, na sua visão — e por isso é preciso combater os momentos de dificuldade. O triunfo de uma história de amor, diz ele, está também na satisfação de tê-la defendido.
Ao transformar a cena cotidiana em um laboratório emocional, Ti sposo ma non troppo funciona como uma carícia e, ao mesmo tempo, como um reframe da realidade: lembra-nos que o romantismo não é anacronismo, mas uma forma de resistência. A peça reafirma o teatro como espaço de experiência coletiva — onde a semiótica do viral encontra o ritual íntimo do afeto — e nos desafia a olhar além do flash e da curtida, para entender o que permanece quando as luzes se apagam.
Para quem busca no entretenimento mais do que entretenimento, este espetáculo é uma lente — cinematográfica e humana — sobre as contradições do amor contemporâneo.




















