Por Chiara Lombardi — Ao deslocar a câmera da fábrica de papel para a redação, The Paper propõe um novo espelho do nosso tempo: um jornal local no Midwest que tenta sobreviver entre cortes orçamentários e a tirania do clickbait. Concebida pelos autores de The Office, a série chega como um spin-off oficial que preserva a forma do mockumentary — o estilo «camcorder + confessionais» — mas esbarra na dificuldade de repetir a ferocidade cínica do original.
No centro das operações está o Toledo Truth Teller, um cotidiano à beira do fechamento cujo valor comercial parece, em tom satírico, menos do que a própria matéria-prima que o originou: papel. A proposta dramática é atual e dolorosa: jornalismo em declínio, idealismo que chora diante da planilha financeira, e profissionais tentando manter o sentido do ofício enquanto o mercado lhes retira ferramentas e público.
Contudo, a série, exibida pela Sky, padece de um problema estrutural. O confronto com a matriz britânica é inevitável e quase sempre desfavorável: The Paper não encontra com frequência a mesma acidez. A escrita oscila entre o familiar e o previsível, e muitas das piadas e arquétipos soam como ecos já vistos, raramente oferecendo uma releitura ousada. Em vez de renovar o formato, a comédia por vezes soa datada, com um ritmo mais contido do que o necessário para fisgar o espectador contemporâneo.
Os personagens secundários, infelizmente, não colaboram para reverter essa impressão. Várias figuras da redação ficam achatadas, cumprindo funções mais emblemáticas do que humanas, o que empobrece o mosaico narrativo e limita a empatia. Ainda assim, há duas presenças que roubam a cena e justificam a atenção: Sabrina Impacciatore e Domhnall Gleeson.
Impacciatore, no papel de Esmeralda Greg, encarna uma «perversa distraída» com uma entrega deliberadamente excessiva. Sua performance é um sopro de vitalidade: exibe uma exuberância que atravessa a tela, dominando o espaço e redesenhando as dinâmicas internas. Onde a série vacila em audácia, a atriz impõe textura e movimento; seu excesso é, curiosamente, a peça mais verossímil de um quebra-cabeça que às vezes parece borrado.
Ao lado dela, Domhnall Gleeson constrói Ned, o editor-chefe que carrega a série para terrenos mais profundos. A sua interpretação lembra ao espectador que o enredo não é apenas pretexto para piadas acerca do ofício — trata-se de um lamento real sobre a erosão do jornalismo. Entre o cinismo pragmático e o cansaço moral, Ned representa o conflito central: administrar o fim de uma tradição enquanto tenta preservar a integridade profissional.
Assim, The Paper funciona em dois tempos. Num primeiro, como sátira institucional, onde falta a ousadia necessária para subverter expectativas; no outro, como estudo de personagens, onde interpretações pontuais elevam o material. O resultado é uma série que agrada mais quando aceita seu próprio tom ambíguo: nem totalmente irreverente, nem seriamente trágica — mas, em episódios, capaz de oferecer momentos memoráveis.
Para o espectador contemporâneo, essa ambivalência é o roteiro oculto da sociedade que a produção tenta mapear: a imprensa como cenário de transformação, palco de identidades em mutação e testemunha de um declínio que não é apenas econômico, mas simbólico. Em última instância, The Paper nos lembra que a perda do jornalismo é uma ferida coletiva, e que, mesmo em um estilo de comédia, há espaço para sentir essa ausência.




















