The Loneliest Man in Town chegou ao circuito festivalier como um raio de sol no cinza de Berlim — uma pequena epopeia de afetos e ruínas que reafirma quanto o cinema europeu ainda sabe transformar figuras marginais em espelhos do nosso tempo. Assinada por Tizza Covi e Rainer Frimmel, a obra reimagina para as telas a vida de Alois Koch, conhecido artisticamente como Al Cook, um ex-mecânico vienense que se deixou seduzir por uma epifania sonora: o encontro com Elvis Presley que o conduziu ao universo do blues.
Covi (italiana) e Frimmel (austríaco) estabelecem, com delicadeza e economia de palavras, um retrato quase silencioso: o músico parece deslocado de seu próprio tempo, como se fosse personagem de um filme mudo que carrega em cada gesto uma pequena liturgia de resistência. A premissa é simples e, ao mesmo tempo, cheia de ressonância social — um afastamento temporário de casa por causa de uma obra, transformado em pretexto narrativo para abordar um despejo simbólico. É neste pequeno cataclismo íntimo que se desenrola uma galeria de personagens memoráveis.
O roteiro evoca modos kaurismakianos: ironia contida, afeto pela periferia humana e uma série de figuras que orbitam a vida de Al Cook — o pseudo-psicólogo encarregado de convencê-lo a sair, a amiga fotógrafa que captura sua presença como quem registra um fóssil vivo, e a cliente com seu cachorro que adquire duas estátuas felinas, gesto aparentemente trivial que ilumina uma economia afetiva muito além do objeto.
Há, nos enquadramentos dos diretores, uma aposta na duração e no silêncio: sequências longas, olhares que se prolongam, pequenos rituais domésticos filmados com compaixão. A escolha de manter o filme quase sem falas transforma Al Cook num relicário emocional — um personagem que diz muito sem pronunciar grandes discursos. É um retrato de melancolia resiliente, de quem habita uma cidade moderna mas preserva uma ancestralidade sonora.
Do ponto de vista cultural, The Loneliest Man in Town funciona como um reframe da realidade vienense: não se trata apenas de música ou de um caso particular, mas de um eco cultural que insinua questões maiores — a relação entre memória e território, a vulnerabilidade do artista frente às transformações urbanas, e a maneira como a marginalidade produz imagens de rara humanidade.
Apresentado em 19 de fevereiro de 2026, o filme confirma a sintonia de Covi e Frimmel com uma estética que privilegia o detalhe e o afeto. Para além do enredo, fica a impressão de um roteiro oculto da sociedade — aqueles pequenos gestos que denunciam uma solidariedade soterrada. Em tempos em que o espetáculo muitas vezes sacrifica a nuance, este filme nos lembra que o blues não é apenas um gênero musical: é um inventário de sobrevivência.
Nos bastidores, compartilhados nas redes, sobressaem imagens de montagem e de ensaio que reforçam o cuidado artesanal da produção — como quem devolve ao cinema a sua qualidade de documento vivo. Em suma, Covi e Frimmel entregam um filme que é, ao mesmo tempo, uma declaração de amor e um espelho crítico: o retrato de um homem só que, olhando bem, revela uma cidade inteira.






















