Por Chiara Lombardi — Em 5 de fevereiro de 1936, no Rivoli Theatre de Nova Iorque, estreava Tempos Modernos, a obra em que Charlie Chaplin entrega, pela última vez, o seu emblemático Vagabundo ao grande público. Sexto longa do cineasta e o segundo que ele realiza depois da transição para o som, o filme marca um ponto de inflexão: é o primeiro em que ouvimos a voz de Chaplin e, paradoxalmente, também o canto do fim de uma era dentro do imaginário cinematográfico.
Escrito pelo próprio Chaplin, Tempos Modernos se apresenta como uma fábula satírica — um espelho do nosso tempo — que costura a ferocidade política com uma melancolia profundamente humanista. O roteiro nasce da experiência da modernidade industrial: o Vagabundo sucumbe a um colapso nervoso depois de ser esmagado pela alienação dos turnos mecanizados, passa por uma instituição de saúde e, ao ser reintegrado à vida “normal”, descobre que o chamado “mundo do trabalho” já lhe deu as costas.
O personagem é confundido com um agitador durante um protesto e vai parar à prisão, de onde sai graças a um gesto acidental que frustra uma fuga. Livre e sempre à margem, o Vagabundo cruza o caminho de uma jovem de rua — personagem interpretada por Paulette Goddard, então companheira de Chaplin — cujo pai (personificado por Stanley Blystone) morreu em meio a uma revolta operária. Tocada pela vitalidade dela, a figura de Chaplin busca refúgio numa vida precária: primeiro como vigia noturno numa loja de departamentos, depois em confusões que o reenviam à prisão e, ainda, improvisando uma rotina frágil numa barraca com a moça.
O filme segue o fio da precariedade: o retorno momentâneo à fábrica como técnico, a interrupção por uma greve, a reinvenção como garçom e, inesperadamente, a descoberta da voz — quando o protagonista canta e é recebido com êxtase pelo público. No entanto, a interferência dos serviços sociais obriga o casal a fugir novamente, deixando o futuro em suspenso. É essa incerteza que confere ao filme sua tensão trágica e poética: a promessa de estabilidade sempre parece escapar no último take.
Desde o título carregado de ironia — Tempos Modernos — até as sequências mais risonhas, o longa é, sem rodeios, um dos grandes clássicos imortais da história do cinema. O que o torna tão perene não é a exposição de uma teoria clara, mas a forma como as questões emergem, estridentes e cinematográficas, do próprio tecido narrativo: a fábrica, a massa, a tecnologia e o isolamento humano aparecem como o roteiro oculto da sociedade industrial.
Em termos estéticos, Chaplin realiza um exercício de reframe: usa recursos do cinema mudo e do falado para criar uma semiótica do viral antes mesmo desse termo existir. O resultado é um filme que funciona simultaneamente como farsa e elegia — um espelho em preto e branco onde reconhecemos, incômoda e ternamente, o rosto do nosso tempo.
Celebrar os 90 anos de Tempos Modernos é menos revisitar uma peça de museu e mais redescobrir um aparelho crítico — um dispositivo narrativo que continua a nos interrogar sobre trabalho, dignidade e sobre o que resta ao indivíduo quando a máquina insiste em ajustar seu ritmo ao preço de sua humanidade.






















