Em um diálogo entre música, imagem e memória, a cidade de Bergamo recebe uma instalação que transforma as canções de Fabrizio De André em cartas vivas. Sob as abóbadas da Sala delle Capriate, no Palazzo della Ragione, três enormes cartas — cada uma com 4 metros de altura por 2 de largura — compõem um tríptico em movimento onde ganham forma 31 personagens extraídos do repertório do cantor genovês.
Marinella dança, Angiolina pula corda, Andrea caminha com pastranos e sacas — “s’è perso e non sa tornare” —, o Pescatore lança a rede, e Bocca di Rosa, com cabelos soltos e vestido leve, evita o olhar do espectador. Em um fluxo de música e imagens que dura cerca de meia hora, a instalação recupera o clima do último tour de De André, Mi innamoravo di tutto, quando, no dia 20 de dezembro de 1997, ele subiu ao palco de Bergamo acompanhado por aqueles mesmos tarots que chamavam o público a «Volta la carta», a desafiar a sorte e a encarar futuros incertos.
O projeto é um spin-off da exposição que ocupará a Accademia Carrara, onde serão celebradas as cartas do baralho Colleoni. Segundo Gianpietro Bonaldi, diretor-geral do museu, a peça em Città Alta “é um presente para Bergamo, seus habitantes e os turistas que visitam o centro histórico” e ficará aberta gratuitamente ao público até 3 de maio. A iniciativa coloca a cidade no mapa de uma prática artística que mistura patrimônio, som e narrativa popular.
A instalação foi concebida pelo coletivo Studio Azzurro, que a realizou originalmente em 2009 para a mostra dedicada a De André no Palazzo Ducale, em Gênova. “É um trabalho que dá voz a uma humanidade diversa, refletida na simbologia dos Arcanos”, explica Maria Luisa Pacelli, diretora da Accademia Carrara. Para Pacelli, De André era “um artista culto que fazia música popular, transmitindo temas e significados universais” — uma ponte entre erudição e sensibilidade coletiva que, nas palavras dela, também espelha o papel desejável de um museu.
Laura Marcolini, entre os curadores do evento, destaca o diálogo plástico entre a instalação e os afrescos da Sala delle Capriate: a composição remete à estrutura dos trípticos europeus e ao repertório da pintura italiana, criando um eco visual que enriquece a experiência. A montagem, iluminada e sonora, transforma o espaço num palco onde o passado e o presente se refratam como num espelho do nosso tempo.
Os tarots, observa a curadoria, permanecem objetos vivos: amados por artistas, por leitores de símbolos, por historiadores e pelo público. Eles funcionam aqui como um repertório semiótico que permite ler destinos, sonhos e quebras de narrativa — o roteiro oculto da sociedade que De André tão frequentemente traduziu em canções.
Mais do que uma peça de homenagem, a instalação propõe um reframe da realidade dos personagens do cantautor: ao amplificar rostos e gestos em três cartas gigantes, a obra convida o visitante a virar a face das histórias, a buscar o que está atrás do verso — uma operação típica do tarot e igualmente do trabalho poético de De André. É também um lembrete de que a cultura popular pode ser, simultaneamente, espelho e mapa: reflete o presente enquanto traça possíveis caminhos para imaginar o futuro.
Para quem vive ou visita Bergamo, a experiência é um convite a percorrer a cidade com os ouvidos atentos e a imaginação aberta: entre a pinacoteca da Accademia Carrara e as projeções no Palazzo della Ragione, os Tarocchi di De André oferecem uma rara fusão entre patrimônio musical e prática museológica contemporânea — um pequeno ensaio sobre como as artes podem traduzir memórias coletivas em imagens que duram.






















