Fui atraída pela promessa editorial: Radix deveria ser um passeio pela província italiana, contado com “linguagem simples e contemporânea” para aproximar os jovens da beleza, da história e da cultura identitária do país. Assisti a alguns episódios e tomei notas, concentrando-me especialmente na edição dedicada a Trieste, esse porto mitteleuropeu que se apresenta como cuna de heróis e memória em camadas.
No episódio, Edoardo Sylos Labini parecia empenhado em reforçar a dimensão identitária da cidade: a centralidade da italianidade de Guglielmo Oberdan, os motins triestinos de 1953 e o hasteamento do tricolor na Piazza dell’Unità em 1954 — um repertório que, se forçado a um tom patriótico uniforme, beira a encenação. Falta pouco para as notas de “Vola colomba” — e a ironia que fica é quase um cenário filmado em bruto.
O programa lembrou as façanhas de D’Annunzio, a vida de uma velejadora local e, sobretudo, a figura controversa de Almerigo Grilz, repórter morto em Moçambique, cofundador da agência Albatross ao lado de Gian Micalessin e Fausto Biloslavo. O episódio mencionou, de passagem, a antiga militância neofascista partilhada por alguns desses nomes — lembrança que carrega ecos políticos, mas que foi tratada com a leveza de uma legenda de rodapé. (Curiosamente, Giulio Base já dedicou um biopic ao caso; tudo parece, de certa forma, interligado.)
Houve também espaço para Italo Svevo e para a pintora Leonor Fini, o que é justo — mas a lista cultural de Trieste é muito mais rica. O programa perdeu a chance de evocar nomes que definem a cidade como um laboratório da modernidade: Umberto Saba, Bobi Bazlen, Guido Voghera, Giorgio Fano, Giani Stuparich, Arturo Nathan, Vittorio Bolaffio, Gillo Dorfles, Wanda Wulz e Edoardo Weiss, discípulo de Freud. Essa omissão empobrece a leitura mitteleuropeia que Trieste merece.
Aliás, não é só sobre nomes: James Joyce encontrou em Trieste refúgio e inspiração; Rainer Maria Rilke olhou o ocaso de um mundo do belvedere de Duino. Há, na cidade, uma indefinição encantadora que é, ao mesmo tempo, seu segredo mais nítido — como bem disse Claudio Magris: Trieste “è il nome amato di questa patria che non c’è”. É um verso que convoca a cidade como espelho das contradições modernas.
E aqui chegamos ao ponto crítico: o que mais me incomodou foi a performance do apresentador. Sylos Labini falava, dizia, dizia — um fluxo retórico que, por vezes, transformou sua presença numa caricatura afetada, à maneira de Luca Barbareschi. Não é ataque pessoal, mas uma observação sobre o tom: quando o discurso tenta abarcar identidade, história e espetáculo ao mesmo tempo, corre o risco de virar moldura vazia. O que fica, então, é um belo enquadramento que pouco ilumina as camadas íntimas da cidade.
Em suma, Radix acerta ao trazer o foco para as províncias — e Trieste justifica múltiplas leituras. Mas a televisão, como um roteiro que precisa escolher seus cortes, deve lembrar que a cultura regional não é só iconografia patriótica; é também um arquivo vivo de contradições, vozes esquecidas e uma pluralidade que merece ser ouvida com outra modulação. Caso contrário, corremos o risco de ver o espelho do nosso tempo distorcido por uma lente demasiadamente teatral.






















