Steven Tyler, vocalista do Aerosmith, enfrentará julgamento na Califórnia por acusações de abuso sexual contra uma menor, decidiu a juíza Patricia A. Young após analisar recursos apresentados pelas partes. A ação movida por Julia Misley (antes conhecida como Julia Holcomb), que afirma ter sido abusada quando tinha 16 anos, chegou a avançar apenas no Estado onde as alegações não estão prescritas — enquanto reivindicações similares em Oregon, Washington e Massachusetts foram rejeitadas por prescrição.
No processo, Misley narra que conheceu Tyler em Portland, Oregon, quando o cantor tinha cerca de 25 anos e ela estava no segundo ano do ensino médio. Segundo a acusadora, Tyler a inseriu em seu círculo íntimo e, a partir de 1973, teria cometido abusos por um período de aproximadamente três anos, chegando inclusive a tornar-se seu tutor legal — um detalhe que o próprio artista não nega em público, tendo relatado o acordo de tutela em seu livro de memórias, “Does the Noise in My Head Bother You?” (2011).
Steven Tyler nega as acusações. A defesa argumenta que grande parte do relacionamento ocorreu em Boston, no Massachusetts, onde na época a idade de consentimento era 16 anos, razão pela qual a lei daquele Estado deveria reger os fatos, mesmo quando havia deslocamentos. A juíza Young, no entanto, entendeu que sempre que Tyler estava em solo californiano deveria observar as normas locais de proteção a menores, motivo pelo qual autorizou o prosseguimento do caso somente na Califórnia.
A decisão judicial marca um ponto de contato entre duas esferas que costumam conviver em tensão: o cânone romântico do roqueiro errante e o enquadramento jurídico que protege vulneráveis. Como observadora cultural, vejo nesse episódio um espelho do nosso tempo: o roteiro oculto que antes permitia certas intimidades agora é revisitado à luz de normas e memórias, e a prescrição — esse mecanismo jurídico que delimita até onde o passado pode ser juridicamente responsabilizado — torna-se peça central para decidir onde a narrativa terá sequência.
Os advogados de Tyler haviam pedido arquivamento, mas a juíza acolheu apenas parcialmente o pedido. Alegações relativas a supostos fatos em Oregon, Washington e Massachusetts foram consideradas prescritas e, por isso, não seguirão para julgamento nesses Estados. Restou, portanto, a via californiana, onde os prazos ainda permitem apurar as alegações em tribunal.
Mais do que um caso sobre um rosto famoso do rock, trata-se de um teste sobre jurisdição, memória e o alcance das leis estaduais diante de trajetórias pessoais que cruzam fronteiras. A história de Misley e Tyler, recontada em depoimentos e na própria autobiografia do músico, coloca em evidência como o imaginário coletivo sobre ídolos pode embotar a percepção de limites legais e éticos — um reframe necessário para este cenário de transformação.
A data oficial para abertura de processo ainda não foi divulgada. O caso seguirá sob trâmites na Califórnia, e qualquer desdobramento terá implicações tanto legais quanto culturais, pois remete à forma como a indústria do entretenimento e a sociedade reavaliam episódios do passado à luz do presente.
Atualizado em 29 de janeiro de 2026.






















