Por Chiara Lombardi — Observadora do zeitgeist cultural.
Com a serenidade de quem analisa um roteiro que, por vezes, revela mais do que o texto, é impossível não notar a tensão entre imagem e substância no percurso recente de Stefano De Martino. A nomeação — abençoada pelo sottosegretario Gianmarco Mazzi — como novo condutor e suposto diretor artístico do próximo Festival de Sanremo representa, sem dúvida, um dos maiores saltos de carreira da história recente da RAI. Mas o movimento levanta uma questão estética e institucional: trata-se de um avanço coerente ou de uma aposta midiática cujo roteiro permanece obscuro?
Assistindo ao programa mais significativo que De Martino já apresentou na emissora, Stasera tutto è possibile (Rai2), a impressão é ambígua. O formato está enraizado numa tradição familiar da televisão popular — jogos conferem ritmo, quedas físicas arrancam gargalhadas e improvisos buscam autenticidade — mas repetição equivalem a desgaste. A cada episódio, a falsa surpresa dos desafios (a famosa «stanza inclinata», quedas coreografadas, esquetes previsíveis) funciona como um eco cultural: o que antes nos divertia agora soa como um reframe óbvio de entretenimento infantil envelhecido.
Mais inquietante, porém, é o desempenho do elenco. Por que rir das piadas de nomes consagrados como Francesco Paolantoni, Herbert Ballerina, Giovanni Esposito ou Biagio Izzo quando a composição do humor parece desprovida de química? A pergunta não é retórica. A comédia, quando eficaz, propõe um espelho do nosso tempo: riemos porque reconhecemos incongruências sociais e emocionais. Quando a interação entre apresentador e convidados não cria tensão criativa, o anfitrião corre o risco de se reduzir a um animador de festas, eficiente na logística do riso, porém sem a escrita que torne o momento memorável.
Curioso é o contraponto das audiências: na noite em que o programa foi ao ar, registrou 16,8% de share — liderança entre as alternativas da noite. Contudo, o contexto importa. Na mesma faixa, a Rai1 exibiu um documentário sobre Riccardo Cocciante que ficou em 10,5%. Há, portanto, uma narrativa paralela a considerar: audiência não é sinônimo automático de relevância cultural. Alguém poderia chamar isso de a tv dos rapazes envelhecidos, uma programação que dialoga com memórias coletivas de infância e festa, mas que, sem renovação semântica, termina por resignificar o vazio como sucesso.
Também digno de nota foi o tratamento dado pelo TG1, que dedicou um serviço a De Martino — a quem está ligada, institucionalmente, a figura de Giorgia Cardinaletti (co‑condutora em Sanremo) — reforçando a ideia de que, na RAI, há apoios e alinhamentos que extrapolam apenas méritos artísticos. A designação de “diretor artístico” pode, legitimamente, ser vista como uma etiqueta que justifica um investimento salarial e simbólico.
Em última análise, esta nomeação e o espetáculo que De Martino hoje conduz funcionam como um pequeno roteiro oculto da indústria televisiva: uma peça que nos mostra menos sobre o talento individual e mais sobre as escolhas institucionais e a audiência que elas pretendem captar. Se Sanremo será a moldura para uma reinvenção autêntica ou apenas o cenário de uma promoção simbólica, será uma das narrativas culturais a acompanhar com olhos críticos. Afinal, na televisão — como no cinema — o que permanece é o que se transforma em memória coletiva.
Publicado em 05/03/2026






















