Por Chiara Lombardi — Em cena nos dias 17 e 18 de fevereiro no teatro Off Off de Roma, Guglielmo Poggi assume o centro de um espetáculo que funciona como um espelho do nosso tempo: Stanno arrivando, peça dirigida por Umberto Marino e produzida por LVF – Teatro Manini de Narni.
Não se trata de um thriller convencional nem de uma palestra sociológica. A montagem constrói, com camadas que vão da ironia à tensão, um fluxo dramático que obriga a plateia a encarar um dos nervos mais sensíveis da contemporaneidade: como a linguagem do perigo e da emergência remodela a nossa imaginação coletiva e redefine prioridades, valores e comportamentos.
Em cena, Poggi desdobra narrativas e registros — do cômico ao profético — para narrar um cenário em que a rotina confortável se esgarça e o medo torna-se fio condutor da existência. Através de imagens e monólogos, o espetáculo pergunta: o que acontece quando a privação de bens essenciais transforma diferenças sociais em conflito direto? Quem sobreviverá às novas regras do jogo quando faltar comida, água, ou simplesmente espaço para respirar?
O texto não oferece soluções fáceis. Em vez disso, propõe uma reconfiguração do olhar: a perda das camadas superficiais do cotidiano — desde os rituais de socialização até os objetos de consumo e as práticas digitais — expõe a brutalidade das escolhas essenciais. A peça empurra o espectador a confrontar o roteiro oculto da sociedade, onde ensino, status e convenções perdem peso diante da luta pelos recursos básicos.
Artisticamente, Stanno arrivando recorre a variações de ritmo e tom para ampliar a sensação de descolamento entre o conhecido e o iminente. A direção de Umberto Marino e a produção da LVF — Teatro Manini de Narni desenham um palco onde a comunicação contemporânea é tanto tema quanto ferramenta: mensagens, alertas e a própria retórica do medo são usados como elementos cênicos que moldam percepção e afeto.
Como observadora cultural, vejo nessa proposta teatral um convite a pensar a emergência como sintoma e metáfora. O espetáculo funciona como uma semiótica do viral: revela como o apelo repetido ao perigo reconfigura prioridades pessoais e coletivas, e nos força a perguntar quem se beneficia desse discurso e quem fica à margem das soluções propostas.
Para além do impacto emocional, Stanno arrivando tem também um valor performativo: lembra que o teatro continua a ser um espaço de reframe da realidade, onde a experiência compartilhada permite testar hipóteses éticas e políticas em tempo real. No final, somos deixados com uma pergunta que ecoa como num plano final de filme — e que, como todo bom roteiro, não busca consolar o espectador, mas desafiá-lo a rever seus pressupostos.
Informações práticas: apresentações nos dias 17 e 18 de fevereiro no Off Off Teatro, com Guglielmo Poggi sob direção de Umberto Marino. Produção por LVF – Teatro Manini de Narni. Recomenda-se reserva antecipada devido à capacidade reduzida do espaço.
Chiara Lombardi é analista cultural ítalo-brasileira da Espresso Italia, especializada em conectar entretenimento, memória e contexto social.






















