Por Chiara Lombardi — Em uma manhã ensolarada nas ruas de Sanremo, a cidade ainda reverbera o eco cultural deixado por uma apresentação que foi, antes de tudo, um reframe da visibilidade social. O grupo do Special Festival, da Anffas La Spezia, saiu do palco do Teatro Ariston não apenas celebrado — saiu reconhecido, abraçado e acompanhado por um aplauso nacional que reconfigura o que entendemos por talento e pertencimento.
Convidados por Carlo Conti para a segunda noite do Festival, os jovens artistas protagonizaram uma performance que entrou no imaginário dos milhões de telespectadores. Na passagem entre entrevistas e cumprimentos pelas ruas, a diretora da Anffas La Spezia e da Special Olympics Liguria, Alessia Bonati, partilhou com entusiasmo os sentimentos da equipe: “Um grande sucesso para todos nós, ci fermano e ci vogliono abbracciare. È la cosa bella in cui speravamo”. Em português, a sensação é de sonho realizado — o público que reconhece, grava e valoriza a presença desses jovens como artistas.
No palco, o conjunto emocionou com uma versão de “Si può dare di più” e apresentou como canção de destaque a própria composição do grupo, “Sono come te”, um hino singelo sobre igualdade e inclusão. A letra e a interpretação funcionaram como um espelho do nosso tempo: uma pequena narrativa coletiva que traduz, em música, o desejo de ser visto e tratado com dignidade.
A formação não é exclusivamente local: os intérpretes vieram não só da Spezia, mas de várias cidades italianas, reunidos por meses de preparação. “Studiano e si preparano come professionisti”, lembra Bonati — uma observação que desmonta o estereótipo da espontaneidade despreparada e aponta para uma disciplina artística sólida, guiada pelo diretor artístico Beppe Stanco e apoiada por instituições como o Comune della Spezia e a Regione Liguria, além de parcerias locais.
O gesto de convidá-los ao Ariston, e a confiança depositada por Conti e pela direção artística de Sanremo, têm um efeito multiplicador: a visibilidade amplia possibilidades e reforça a narrativa do Terceiro Setor como agente cultural. A trajetória do Special Festival agora ganha impulso para continuar, segundo Bonati, “più forte di prima”.
Enquanto observamos essa cena — jovens artistas saindo do palco com a cidade aplaudindo — é difícil não ler o acontecimento como um pequeno roteiro sobre transformação social. Não se trata apenas de um número musical bem-sucedido; é um ato performativo que reescreve a presença pública de pessoas com diferentes habilidades, transformando a música em plataforma política e estética.
Em termos culturais, a performance funciona como uma “semiótica do viral”: imagens e emoções que circulam rapidamente e redesenham percepções. Em essência, o que vimos em Sanremo foi um retrato de como a arte pode ser catalisadora de mudança — um roteiro oculto que, por alguns minutos, fez brilhar no palco aquilo que muitas vezes permanece fora de cena.
Data: 26 de fevereiro de 2026.






















