Por Chiara Lombardi — Há artistas cujo trabalho funciona como um espelho do nosso tempo, refletindo memórias e desejos coletivos com a mesma delicadeza de uma cena filmada em planos longos. É o caso de Slava Polunin, nascido em Novosil’ há 75 anos, que chega mais uma vez ao Piccolo Strehler com a magia conhecida de Slava’s Snowshow, agora em uma edição especial inspirada nos Jogos Milano Cortina. Até 22 de fevereiro, o teatro se transforma num cinema de afetos onde a neve volta a ser personagem principal.
Mimo, ator, diretor — e, talvez sobretudo, um inventor de sonhos para crianças de todas as idades — Slava conta que a sua ligação com a neve remonta a um “c’era una volta” da infância: florestas de bétulas, casas nas árvores e bonecos de neve com cenouras por nariz. “Pagliacci di ghiaccio che ci facevano tanto ridere”, memórias de palhaços de gelo que, ele suspeita, foram a faísca inicial para se tornar clown. Essa origem russa simples e poética está presente em cada trovão silencioso de confete branco e em cada balão colorido que flutua no palco.
Depois de 25 anos e milhares de apresentações mundo afora, o Snowshow é, para Slava, “uma espécie de filho”: um espetáculo que tem o poder de provocar riso e emoção, de nos trazer de volta aos sonhos de infância e àquela sensação calorosa que a neve guarda em nossas memórias — mesmo sendo fria. É este reframe da realidade, este roteiro oculto da sociedade, que transforma uma plateia em comunidade de lembranças.
A versão olímpica promete surpresas: “O espetáculo é um campo para a improvisação, e em isso nossa equipe é imbatível. Só quando estivermos em cena saberemos como as Olimpíadas nos inspiraram”, diz Slava, deixando o espectador na expectativa pelo confronto entre o ritual do circo e o fervor competitivo glamurizado das provas de inverno.
Trabalhar no Piccolo é, para ele, mais do que um retorno: é um encontro com as almas do teatro. Slava recorda com reverência a visão de Ferruccio Soleri em Arlecchino servitore di due padroni, e fala daquela sensação que alguns teatros carregam, como se as histórias dos artistas permanecessem vivas sob o palco — um verdadeiro eco cultural.
As raízes do trabalho de Slava também dialogam com a Itália: cita Fellini como influência e aponta o livro I Clown de Tristan Rémy como uma espécie de bíblia. No verão passado, ele protagonizou um projeto sobre Pulcinella com jovens atores de vários países, reafirmando como a comédia dell’arte alimenta sua poética. Essa relação com a tradição italiana insere o Snowshow em um mapa cultural que é europeu e global ao mesmo tempo.
Entre a maquiagem e a vida cotidiana, Slava provoca a pergunta — que é também um lembrete para nós: ser clown é um ofício ou um modo de existir? Quando o rosto pintado volta ao normal, muda a personalidade ou permanece a mesma alma que inventa histórias no centro do palco? Em seu trabalho, a resposta parece ser um convite: a arte do clown nos desafia a reconhecer que, por trás do riso, há sempre uma verdade humana que resiste ao esquecimento.
Enquanto isso, no Studio Melato, a partir de 4 de fevereiro, Marco D’Agostin propõe um diálogo curioso entre dança e esqui cross-country — outro sinal de como o teatro e as artes performativas se reconfiguram diante do evento olímpico. Juntos, esses trabalhos compõem um pequeno festival de imagens e gestos que nos pede para olhar além do espetáculo e ver o que ele diz sobre nós.
Assistir a Slava’s Snowshow no Piccolo é, mais do que entretenimento, um exercício de memória cultural: é permitir que a plateia volte a ser criança por algumas horas, e reconhecer que a neve, o riso e a poesia do gesto cômico são, afinal, fragmentos do nosso imaginário coletivo.





















