Por Chiara Lombardi — Em um mundo onde o espelho digital reflete tanto liberdade quanto armadilhas, Sigfrido Ranucci, rosto e voz do programa Report, publica Navigare senza paura (Ape Junior): um livro-jogo pensado para os jovens exploradores digitais. A obra surge como um roteiro prático para navegar — com sentido crítico — pela complexa geografia da internet contemporânea.
No livro, estruturado em quatro histórias que tocam em temas como inteligência artificial e fake news, Ranucci propõe um manual de instruções para uma geração que ensina e aprende em simultâneo, um verdadeiro reframe do conhecimento intergeracional. “Estamos vivendo um curto-circuito geracional que não tem precedentes: os mais jovens podem ensinar algo aos mais velhos, mas os mais velhos podem alertá‑los sobre riscos que eles ainda não veem”, diz o autor.
O tom do livro é direto e pedagógico, pensado para envolver — não pregar. Ranucci contou com a colaboração do filho Giordano, professor de apoio, cuja experiência foi fundamental para encontrar a linguagem adequada ao público juvenil. “Você precisa envolver os jovens, não lhes dar uma lição de moral”, afirma.
Para Ranucci, a internet é um poderoso instrumento de liberdade, porém frequentemente manipulada por mecanismos que priorizam a atenção: “Os social não nasceram como instrumentos de informação, mas de partilha. O algoritmo privilegia a noticiabilidade — a capacidade de atrair cliques — não a verdade. É uma trappola que facilita a circulação de fake news e vídeos manipulados.”
Uma das histórias do livro se concentra na dinâmica de compartilhamento: o entusiasmo — aliado à inconsciência — pode levar a um clique cujo efeito é irreversível. Ranucci lança um aviso direto aos jovens leitores: antes de apertar “enviar”, reflita; não faça algo de que possa se arrepender.
Outra preocupação central é a exploração dos dados pessoais pelas plataformas. Segundo o autor, as redes têm interesse em manter usuários o mais tempo possível conectados para coletar dados, paixões e até inclinações políticas, transformando essas informações em produto comercial.
Sobre o jornalismo investigativo, Ranucci descreve um cenário cada vez mais hostil: “A maior dificuldade hoje é atuar em um ambiente de delegitimação contínua e de tentativas de difusão de notícias falsas”. Ele compara seu modo de trabalhar ao de um trapezista: quando você vira alvo, precisa deslocar a atenção de um problema para outro — uma estratégia de sobrevivência profissional e narrativa.
O percurso profissional de Ranucci não ficou isento de consequências. Como ele mesmo recorda — e como já havia revelado publicamente — o jornalista foi alvo de múltiplas ações judiciais: o político Tosi o teria processado 19 vezes por um inchiesta de 36 minutos, episódio que ilustra o uso da via legal como forma de desgaste e intimidação de quem investiga.
Ao falar a quem pretende ingressar na investigação jornalística, Ranucci deixa um conselho prático e ético: não se deixar seduzir pela tecnologia em si; distinguir forma de conteúdo; manter o foco na verificação e no método. A tecnologia é ferramenta, não o roteiro final.
Como observadora desse zeitgeist, afirmo que o livro de Ranucci funciona como um espelho do nosso tempo: não se trata apenas de ensinar a navegar, mas de interpretar o roteiro oculto que transforma cliques em narrativas e narrativas em poder. Para os jovens, é um mapa; para os adultos, um lembrete de que a proteção começa na educação digital.






















