Serena Rossi transforma memória e cidade em som no seu primeiro álbum, SereNata a Napoli, lançado pela Warner Music Italy em 30 de janeiro. O projeto, que nasce do seu espetáculo teatral homônimo, reúne 14 clássicos da tradição napolitana — de Era de Maggio a Dicitencello vuje, passando por Io Mammeta e tu, Tammurriata Nera e Munasterio e Santa Chiara — rearanjados com sensibilidade contemporânea e gravados à moda antiga.
Em uma escolha tão estética quanto política, Serena e os músicos entraram no estúdio em Nápoles durante dois dias e tocaram juntos ao vivo, respeitando o ritmo dos corpos e o pulso dos corações. Foi uma decisão de continuidade: não deixar que essas canções permanecessem confinadas apenas ao teatro, mas dar-lhes uma presença discográfica que funcione como espelho do nosso tempo. Ela mesma define com precisão: tradição não é pó, é raiz. Uma frase que funciona como manifesto e como reframe da realidade musical que propõe.
O álbum sai em CD, vinil e nas plataformas digitais, e chega como uma marca: a vontade de deixar uma trilha visível e palpável desse repertório infinito e eterno. Produzido em conjunto com o marido, o ator e parceiro criativo Davide Devenuto, o disco foi recebido em casa como um presente de Natal — a emoção de tocar algo nascido de uma ideia partilhada e de uma visão comum.
Paralelamente ao lançamento, Serena finaliza as filmagens da série da Rai La famiglia Panini, onde interpreta uma personagem em dialeto modenese. E não para por aí: no dia 3 de fevereiro a turne de SereNata a Napoli recomeça por Modena, seguindo por Lecce, Bari, Napoli, Pescara, Palermo e Catania, com encerramento previsto em Roma em maio. O percurso mostra uma Itália que ainda precisa ouvir e se reconhecer nessas canções, um país cujo roteiro oculto da sociedade passa também pela música popular.
Sobre Sanremo, questionada, apontou uma distinção que revela sua leitura cultural do espetáculo: competir no festival exige mais do que apenas saber cantar; já a função de coapresentadora, segundo ela, estaria alinhada com suas habilidades.
A infância napolitana de Serena aparece como clichê e mito pessoal: as caminhadas de domingo pelo centro histórico, os cheiros, os ruídos, o caos que cria memória coletiva. E o Monastero di Santa Chiara, lugar simbólico onde seus pais se conheceram, funciona como uma imagem fulcral que atravessa o projeto, conferindo-lhe uma geografia afetiva.
Mais do que um disco de covers, SereNata a Napoli é um gesto de curadoria afetiva e de arqueologia sentimental. É a semiótica do viral aplicada ao repertório clássico: quando o passado é reescrito com cuidado, ele volta a falar do presente. Serena Rossi não está apenas regravando canções; ela está compondo um eco cultural que nos convida a escutar as raízes para entender para onde caminhamos.






















