Serena Rossi transforma palco e estúdio em um espelho do nosso tempo com SereNata a Napoli, seu primeiro disco que chega às prateleiras justamente como continuação do espetáculo homônimo. Nascida há 40 anos em Nápoles, a atriz e cantora converteu em música as cores, os ritmos e as paisagens sentimentais da cidade, num trabalho que revisita clássicos e ao mesmo tempo aponta um reframe da tradição.
O álbum reúne 14 faixas — reinterpretadas e rearranjadas ad hoc — que vão de Era de Maggio a Dicitencello vuje, passando por Io mammeta e tu, Tammurriata Nera e, como single de lançamento, Presentimento. A canção, segundo Rossi, é “uma composição menor, uma balada de amor suave e apaixonada” que ela não havia cantado antes do espetáculo. Datada de 1918 e assinada por E. A. Mario, Presentimento é uma das muitas vozes históricas do repertório — ao lado de Libero Bovio, Renato Carosone e Massimo Ranieri — que ressoam nas suas cordas sem imposições de roteiro.
“O repertório é eterno, mas sempre atual”, diz Serena Rossi. Em sua leitura, fazer tradição não significa apenas olhar para trás: é caminhar adiante sabendo de onde se vem. Esse olhar é parte do roteiro oculto do projeto, que dialoga com fenômenos contemporâneos, como a força do viral e a ousadia de projetos como La Niña, onde a eletrônica encontra o napolitano e reinventa a música partenopeia.
Escolher quais canções integrariam primeiro o espetáculo e depois o disco foi um processo rigoroso e emotivo. Rossi conta que a seleção foi uma “scrematura dolorosíssima”: muitas versões escutadas, playlists feitas, escolhas ponderadas para que a história do show — que não é só um concerto — pudesse emergir. Do palco para o disco, cada tema do espetáculo sustenta um universo de memória e sentimento: da nostalgia dos migrantes ao amor, passando por outras ramificações da experiência coletiva.
Musicalmente, o álbum alterna ballate melancólicas e tammurriate festivas para “dar ritmo e cor” à narrativa napolitana. As gravações aconteceram ao vivo, em estúdio, num intenso giro de dois dias em Nápoles, com os músicos do espetáculo e sob a direção do maestro Valeriano Chiaravalle — um registro que privilegia a imediaticidade e o calor do encontro musical.
Há ainda uma declaração explícita de afeto pela língua: o disco se assume como uma declaração de amor ao dialeto napolitano. Em tempos nos quais o ISTAT aponta para o desaparecimento de vários dialetos, Rossi observa com preocupação que hoje muitos jovens escrevem como “codici fiscali” — um comentário que revela a urgência de resgatar memórias linguísticas como patrimônio vivo.
Do teatro ao disco e de volta à turnê, SereNata a Napoli estreia numa trajetória que reitera o papel de Rossi como intérprete que olha para o passado com olhos de narradora contemporânea. Mantova é a primeira parada da tournée de inverno, que retoma em 3 de fevereiro a um ano do debut. Para quem acompanha sua carreira — da descoberta em Un posto al sole aos prêmios como o David di Donatello e dois Nastri d’argento —, este projeto reafirma sua posição como intérprete que leva a tradição ao cenário de transformação cultural, como uma cena onde memória e presente encenam um diálogo permanente.
Se a canção napolitana é um mapa afetivo, Serena Rossi desenha nele rotas novas: não para apagar o original, mas para iluminar caminhos que nos permitam ouvir, novamente, o que temos a perder e a preservar.



















