Sanremo 2026 revela outra face de Serena Brancale. Depois do furor pop e da vibração contagiante de 2024 com o hit Anema e core, a cantora retorna ao palco do festival com uma proposta íntima: “Qui con me“, uma ballad que ela define como uma carta dedicada à mãe que se foi há seis anos.
Em tom contido e sem artifícios, Serena Brancale promete uma apresentação despojada. “Não terei nenhuma máscara, não vou brincar com cores; levo ao palco a verdade”, diz a artista, visivelmente emocionada. A performance, segundo ela, será enxuta: sem tocar no pé do microfone, sem gestos de diva, quase uma cena de teatro minimalista em que cada silêncio pesa tanto quanto uma nota.
Nas provas, a cantora confessa que pensa na mãe, mas também no pai e no irmão, forças silenciosas que a acompanham. A ligação familiar se materializa ainda mais porque a irmã Nicole estará à frente da orquestra. E para sentir a mãe ainda mais próxima, Serena revela que usará um dos vestidos dela na noite da final — uma peça que compraram juntas e que funciona como um relicário afetivo.
Importante, ressalta a cantora, é que a escolha não tem a intenção de criar um clima sombrio. “Não quero dar uma sensação triste; prefiro que essas palavras façam cura para quem passou por uma perda como a minha, para mostrar que ninguém desaparece de verdade”. É um reframing da dor: transformar lembrança em remédio, memória em presença.
Este lado contido de Serena Brancale não surge do nada. Antes do ciclo dos hits e do gingado pop, ela já havia visitado Sanremo com uma estética mais aveludada, elegante e jazzística, passagem que marcou sua trajetória artística. Na última edição do festival, durante a noite das covers, ela dividiu o palco com Alessandra Amoroso em uma versão arrebatadora de “If I Ain’t Got You”, de Alicia Keys — um momento que ainda reverbera.
Na reflexão que faz sobre a própria carreira, Serena lembra que três anos atrás sonhava com Sanremo como plataforma para os jovens que participavam de suas masterclasses. Em 2025, o festival foi uma celebração; em 2026, é o tempo da consciência. Ela não teme desorientar quem a conhece pela veia pop: “Quem me acompanha sabe que também existo nessa linguagem mais contida. Nos meus shows do último verão houve momentos a cappella com ‘Anema e core’ e trechos solo ao piano com loop. Sou festa e silêncio ao mesmo tempo”. O disco que ela prepara para a primavera promete essa dicotomia: “diavolo e acqua santa”.
Questionada sobre a possibilidade de recusar um convite ao Eurovision, como fez Levante em ato de protesto, Brancale evita firmar posição. “Não estou pensando nisso agora, respeito quem se afasta e também quem decide ir e usar a cena como palanque”.
Em cena, portanto, estará mais do que uma cantora: estará um espelho do nosso tempo, uma artista que usa a forma canção como narrativa de memória e cura. Entre a celebração pop e a composição íntima, Serena Brancale escolhe o roteiro que pede autenticidade, trazendo à luz o roteiro oculto da sua história em pleno palco de Sanremo 2026.
29 de janeiro de 2026






















