Por Chiara Lombardi — No palco que frequentemente atua como espelho do nosso tempo, Serena Brancale retorna a Sanremo para a sua terceira participação, desta vez com a canção profundamente pessoal “Qui con me”. A presença da cantora e compositora pugliese no Festival desenha mais um ato de uma trajetória em que a técnica clássica encontra a liberdade do jazz, do soul e do R&B — um roteiro que, aos poucos, define sua identidade como narradora sonora.
Formada em tradição clássica e diplomada em canto jazz no Conservatório de Bari, Serena Brancale vem construindo um idioma musical que conjuga técnica, groove e interpretação marcante. O público nacional a descobriu ainda mais amplamente após o viral “Baccalà”, faixa que revelou seu lado mais irônico e experimental, abrindo uma fase de renovação criativa.
Depois da estreia entre as Nuove Proposte em 2015 com “Galleggia” e do retorno em 2025 com “Anema e core” — canção certificada com platina no ano passado — Brancale chega ao Ariston com uma letra que é, essencialmente, uma carta. “Qui con me” é dedicada à mãe, falecida há seis anos: “Este é o ano certo para falar dela”, explica a artista. “Esperei seis anos porque precisava de tempo para encontrar as palavras certas”. Essa paciência narrativa transforma a canção em um documento íntimo, que pulsa entre memória e rito público.
Família e palco se encontram: a irmã Nicole Brancale dirige a orquestra durante a apresentação. Serena descreve Nicole como um verdadeiro amuleto: “Com este brano, ela não poderia faltar; não consigo imaginar olhar para o palco e não ver alguém tão ligado a essa canção”. A emoção das provas, ao vê-la com os olhos úmidos, revela o laço afetivo que sustenta a performance. Há ainda a esperança de convencer o pai a assistir ao espetáculo, gesto que acrescenta outra camada de afetividade ao momento.
No repertório do Festival, Brancale dividirá um momento especial com o cantor estadunidense Gregory Porter e com a soprano catanesa Delia, interpretando o clássico “Bésame mucho”. Essa escolha dialoga com a estética da cantora: tradição interpretada com um olhar contemporâneo.
O ciclo criativo recente de Serena Brancale foi movido por colaborações e por um intenso ano artístico. Em fevereiro de 2025, ela levou ao palco sanremense “Anema e core”, seguida da parceria com Alessandra Amoroso em “Serenata”, hit de verão que conquistou disco de ouro. Em maio, iniciou o “ANEMA E CORE TOUR”, com mais de 40 shows pelo mundo, encerrados em 25 de outubro no Teatro Arcimboldi, em Milão.
Sobre o futuro, Serena garante que um álbum novo é inevitável: “Tenho muitas coisas para recolher nestes dois anos maravilhosos, desde o baile funk brasileiro até o trabalho com o dialeto — com polêmica e tudo, foi lindo e me orgulho”. Brincando quase como um título-subtexto, comentou que quase chamou o disco de Il diavolo e l’acqua santa, imagem que sintetiza o contraste entre suas facetas — o risco e a pureza, o terreno e o sagrado — ecoando o reframe que sua música oferece ao público.
Em suma, o retorno de Serena Brancale a Sanremo não é apenas um comeback artístico: é um gesto de arquitetura emocional, um lamento transformado em canção e uma afirmação de que a música pode ser tanto espelho quanto mapa — o roteiro oculto de uma vida que se constrói entre lembranças, família e palco.






















