Por Chiara Lombardi — Em uma entrada que mistura sinceridade e aplomb, o jovem artista ítalo-tunisino Sayf desembarca no palco do Ariston com Tu mi piaci tanto, canção que marca sua estreia no Festival de Sanremo 2026. Com a postura de quem quer «entrar de cabeça erguida e sem expectativas», Sayf traz uma faixa aparentemente pop — ele próprio descreve como uma “una supposta” — que esconde camadas de significado e citações que funcionam como pequenos espelhos do nosso tempo.
No centro da canção, a melodia pegajosa contrasta com um texto denso: há lembranças vívidas da Copa do Mundo de 2006 — “Me li ricordo vividamente, tifavo in modo sfegatato” — e referências a Luigi Tenco, usadas para ilustrar a tensão do debut. “É talvez a parte mais pessoal, um modo per esprimere la paura di non essere capita” — explica ele, traduzindo uma angústia universal dos que se expõem publicamente pela primeira vez.
Um dos momentos mais provocativos da letra é a reutilização, com acento irônico, do slogan de Berlusconi “L’Italia è il paese che amo”. Para Sayf, a frase ganha um duplo sentido: além da carga histórica italiana, há a perspectiva de quem tem raízes tunisinas. “É uma frase usada de forma sarcástica — conta — mas, sendo também tunisino, para mim tem um valor acrescentado”. A declaração abre uma constelação de reflexões sobre identidade, pertença e o que significa amar um país imperfeito.
Quando fala da Itália, Sayf não se esquiva da complexidade: “Amo a Itália, apesar de tudo. Somos um país bagunçado, mas comparado a muitos no mundo, penso que é imbatível em qualidade de vida, gastronomia e cultura”. Esse amor visceral se entrelaça com o afeto pela cidade que o formou: Genova. “É fundamental, é minha mãe. Uma cidade viva, pouco romantizada, mas belíssima” — diz, evocando a geografia afetiva que molda tantos artistas contemporâneos.
A canção contém ainda imagens potentes, como a do “um flor em uma camioneta” para apagar as lembranças das pancadas nas praças. “É um símbolo de não violência — explica Sayf — Significa: ‘OK, esquecemos um agravo para seguir em frente e construir algo positivo’. O sentido é que somos todos iguais, divididos por economia e contexto, e acabamos lutando entre nós sem ganhar nada’. A figura do manifestante e do policial são, em sua leitura, filhos da mesma condição social — um reframe que transforma um gesto em pedido de paz pessoa a pessoa.
Sobre um eventual posicionamento político no palco, na trilha do que artistas como Ghali têm feito, Sayf é categórico: “Tenho muito respeito por Ghali, o conheço e o estimo, respeito seu compromisso político e social. Dito isto, não estou aqui para ser o Ghali 2.0 só porque sou tunisino e tenho cabelo parecido”. Para ele, o engajamento deve ser autêntico: “Ações sociais não são slogans. Se houver um tema em que eu me sentir compelido, me exporei”.
Quanto ao possível envolvimento no Eurovision, Sayf revela que decidirá na hora, mas apoia quem se posiciona, especialmente sobre a questão palestina: “É justo enviar uma mensagem quando as instituições falham em fazê-lo”. Sobre espiritualidade, mantém uma relação pessoal: diz ter um “espírito religioso” que prefere preservar de rótulos públicos.
Na conjunção entre melodia e manifesto, Sayf encarna hoje um tipo de artista que nos pede para olhar além da superfície — como um plano-sequência que revela, aos poucos, o roteiro oculto de uma sociedade. No Ariston, sua canção funciona como um espelho do nosso tempo: um refrão para cantar na boca do público e versos que convidam à reflexão. E, no fim das contas, é essa tensão entre o visível e o subtexto que faz de Tu mi piaci tanto uma proposta pop de olhar profundo.






















