Chiara Lombardi para Espresso Italia — Em pleno Festival de Sanremo, o nome que virou fio condutor das conversas do cenário urbano é Sayf. Não é só um nome artístico: é a lente pela qual Adam Viacava, 26 anos, traduz memórias pessoais e traços da história italiana em barras que pretendem provocar mais que entreter. A pronúncia, avisa ele, pede acento: Sàyf — um gesto de pertencimento e de adaptação, como tantos que definem identidades contemporâneas.
No palco da competição entre os Big, a canção “Tu mi piaci tanto” joga com um refrão pronto para a viralidade enquanto nas estrofes se abre uma análise social inquieta. É um contraste calculado: o coral pop que gruda na cabeça funciona como contrapeso à severidade das imagens que o rap coloca em primeiro plano. “Quero ironizar para camuflar o peso do que digo”, admite o artista, “mas também uso o refrão para focar nas pequenas coisas, em contraponto ao individualismo que nos atravessa”.
O repertório lírico de Sayf costura instantâneos da cronologia sociopolítica italiana — das enchentes em que jovens como ele já tiraram o barro de cima das vidas alheias, até políticos que parecem viver à margem do desastre. Há homenagens e referências diretas, como a lembrança de Cannavaro nos Mundiais e a menção amarga à morte de Tenco, que se transformam em pontos de ancoragem para sua perspectiva pessoal. “O fio condutor sou eu, minha ótica”, explica.
Aos 13 anos, lembra, já passou noites limpando lama de cidades alagadas — uma cena que reaparece nas suas rimas como testemunho e convocação. Outra camada do seu trabalho vem da reconstrução crítica da história política da chamada Primeira República: memórias coletivas que se entrelaçam com afetos privados. E quando a letra remete, sem nomear, à célebre “discesa in campo” de Silvio Berlusconi, o tom é de sarcasmo calculado. “É forte que eu, com origens tunisinas, diga ‘A Itália é o país que amo’ — e o digo de verdade”, afirma.
Nas raízes familiares, a mistura é explícita: pai com linhagem italiana “desde 1300” e mãe tunisina. Ele se define “genovês por inteiro e tunisino por inteiro” — e se posiciona como possível espelho para jovens com trajetórias híbridas, lembrando o impacto que Ghali teve ao abrir caminhos no rap italiano para artistas de origem migrante. A emoção de ver artistas semelhantes chegarem a palcos como o de Sanremo é tratada por Sayf como um gesto político, na mesma linha de manifestações simbólicas recentes como a de Bad Bunny contra o ICE nos Grammys.
Sobre o Eurovision, onde o debate sobre participação e boicote ganhou visibilidade após declarações de artistas como Levante, Sayf posiciona-se com prudência ativa: compartilha a solidariedade de quem protesta, especialmente em relação à causa palestina, mas diz que só tomará uma decisão sobre uma eventual ida ao evento se for realmente necessário. A Rai já cogita pedir um posicionamento preventivo sobre a participação no Eurovision — “por quê?”, pergunta o rapper, ponderando que decisão só virá quando a situação exigir.
Mais do que um intérprete de tendências, Sayf aparece como um narrador que reescreve o presente em primeira pessoa: pega elementos da memória coletiva, acrescenta vivências pessoais e modela canções que funcionam como pequenos dispositivos de reflexão. O rap, para ele, não é só som — é um convite a um raciocínio em três dimensões, um reframe da realidade que pede atenção e imaginação.
Num festival muitas vezes percebido como vitrine superficial, a entrada de vozes assim lembra que o entretenimento é sempre um espelho do nosso tempo — e que, por trás do refrão viral, pode haver um roteiro oculto que nos obriga a pensar o que somos e para onde vamos.






















