Por Chiara Lombardi — Esta noite, no palco do Festival de Sanremo 2026, o piano será a voz que liga passado e presente. O pianista Saverio Cigarini acompanhará Chiello numa interpretação de Mi sono innamorato di te, o clássico de Luigi Tenco, numa escolha que funciona como um espelho cultural: a canção ressoa como um roteiro oculto da nossa memória coletiva.
Nascido em Modena, Saverio Cigarini é formado em piano e em composição para a música aplicada às imagens pelo Conservatorio G.B. Martini de Bologna. Sua trajetória artística cruza diferentes cenários da música italiana contemporânea — já tocou e trabalhou com nomes como Colombre, Maria Antonietta, Giorgio Poi e Lucio Corsi —, construindo um repertório que conjuga sensibilidade clássica e uma estética pop refinada.
Inicialmente previsto para dividir o dueto com Chiello estava Morgan, mas Saverio Cigarini entrou na noite desta sexta-feira como substituto, trazendo consigo uma harmonia que liga o arranjo original à leitura contemporânea do cantor lucano. A própria presença de Saverio no palco é sintoma de um reframe da realidade musical: a interpretação de um standard torna-se diálogo entre gerações.
Além de intérprete, Saverio Cigarini é também um dos autores da canção que Chiello apresenta em competição, Ti penso sempre. A composição é creditada a Chiello, Tommaso Ottomano, Saverio Cigarini, Fausto Cigarini e Matteo Pigoni, um time que une vozes e arranjos em torno de uma narrativa íntima. Para a interpretação de Mi sono innamorato di te, Saverio e Fausto Cigarini assinaram o arranjo, enquanto Fausto assume a batuta como regente da orquestra.
Assistir a esta colaboração é observar a semiótica do viral se cruzando com tradição: o ato de revisitar Tenco numa grande cena como a do Ariston não é meramente homenagem, é também intervenção — uma forma de reescrever a canção ao vivo, expandindo seu eco cultural. Saverio Cigarini traz para o espetáculo não só técnica, mas uma sensibilidade de compositor que entende cada acorde como um enquadramento de cena, como se o piano projetasse imagens sonoras.
Hoje, às vésperas da apresentação, o olhar está voltado para a conjugação entre a voz e o teclado, entre interpretação histórica e invenção contemporânea. Em tempos em que o pop se apresenta muitas vezes como superfície, intervenções como esta lembram que o entretenimento é também documento — e que cada nota pode ser um reflexo do nosso tempo.
Data: 27 de fevereiro de 2026






















