Por Chiara Lombardi — Em uma noite em que a música se faz ponte entre memórias e responsabilidade, Santo Versace organiza em Roma um concerto singular destinado a transformar dor em cuidado e oportunidade. Intitulado Un viaggio di ritorno, o evento acontece na sexta-feira, 13 de fevereiro, às 20h, no Auditorium Parco della Musica Ennio Morricone, e terá toda a arrecadação destinada ao projeto Il miracolo della vita – Tabasamu la Mama da Fundação Santo Versace.
O que torna a proposta particularmente potente é a história dos instrumentos que subirão ao palco. A Orchestra del Mare toca com violinos e outros instrumentos fabricados a partir da madeira retirada dos barcos de migrantes que chegam a Lampedusa — peças marcadas por um percurso de fuga, sobrevivência e esperança. Nasce assim uma estética da resiliência: o som como reframe da realidade, a corda que vibra como um espelho do nosso tempo.
O projeto da Orquestra tem raízes em um laboratório de luteria iniciado em 2012 no presídio de Opera. Foi ali que o primeiro Violino do Mar tomou forma — um instrumento simbólico, apresentado inclusive ao Papa Francisco — e que abriu caminho para um propósito maior: converter materiais sinalizados pela dor em vozes musicais que testemunham as histórias de quem foge da guerra e da pobreza.
Na noite romana, o palco reunirá a Orchestra Pessoa e a Piccola Orchestra dei Popoli, com participações confirmadas do ator Alessio Boni e do maestro Nicola Piovani. A performance é, portanto, mais do que um concerto beneficente: é um ato performativo que liga a prática artística à ação social, uma semiótica do viral que convida à escuta ativa.
Para Santo Versace, a solidariedade é uma missão contínua. Ao contar sobre o trabalho da fundação, ele evoca imagens familiares e uma herança escolhida: “A Fundação é nossa filha”, diz Versace, lembrando que, embora ele e a esposa Francesca não tenham tido filhos próprios, optaram por investir em vidas espalhadas pelo mundo. Em Kibera, a maior favela de Nairóbi, no Quênia, a Fundação comprou uma casa para acolher jovens mães e seus filhos — mulheres que viviam na rua ou em lixões, em condições de extrema fragilidade material e emocional, mas que escolheram dar vida mesmo diante das adversidades.
“Cuidamos delas, formamos, ensinamos um ofício. O objetivo é um: torná-las economicamente independentes para que possam abrir espaço a outras mulheres”, resume Versace. Há aqui uma progressão clara — cultura, autonomia e coragem — que ele identifica como os pilares da liberdade humana: primeiro a cultura que revela direitos; depois a independência econômica; por fim, a coragem para resistir às violências.
O concerto em Roma, assim, representa um microcosmo do que a Fundação busca concretizar: transformar ideia em impacto, convergir arte e prática social, e construir um roteiro de regeneração. Na metáfora que melhor descreve esse esforço, a madeira dos barcos que outrora carregou sofrimento torna-se agora instrumento que dá voz às histórias que merecem ser ouvidas — uma partitura de reconciliação que ecoa além do palco.
Participar dessa noite é simultaneamente apreciar uma experiência musical rara e engajar-se em um movimento que devolve dignidade. Em tempos em que a narrativa pública sobre migração frequentemente se reduz a números e noticiários frios, projetos como o de Santo Versace reapresentam a humanidade por trás das travessias: faces, escolhas, filiações afetivas e a possibilidade concreta de reescrever destinos.
Onde e quando: Auditorium Parco della Musica Ennio Morricone, Roma — 13 de fevereiro, 20h. Proventos destinados ao projeto Il miracolo della vita – Tabasamu la Mama na favela de Kibera.




















